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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O Segredo da Felicidade (by Rogerio Rufino)

Quem teve o privilégio de ler O Grande Gatsby, de Francis Scott Fitzgerald, one of my favorites, que por uma destas incríveis coincidências do destino, vim a descobrir que ele nasceu e está sepultado numa cidadezinha, chamada Rockville, MD na qual morei por dois anos com minha família nos EUA.
Minha esposa que, tem o estranho gosto de visitar cemitérios, conheceu o tumulo de Fitzgerald, e voltou encantada com a beleza insólita do pequeno cemitério em que ele repousa.
Confesso que meu interesse por Fitzgerald se limita a seus livros, mas fui forçado a levá-la a Arlington, o famoso cemitério militar americano. Tem uma beleza despojada e ao mesmo tempo sombria e sem dúvida alguma histórica, pois ali repousam as mais altas personalidades americanas.

Mas o livro Grande Gatsby inicia-se assim e eu nunca me esqueci disto, coisa que assombrou minha esposa certa vez, como eu poderia lembrar uma frase completa de algo que li na minha juventude. Como eu disse num post anterior, certas memórias, às vezes permanecem por muitos anos, às vezes por toda eternidade.

“Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci : - Sempre que você tiver vontade de criticar alguém - disse-me ele - lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens que você desfrutou.”

Bem, meu pai nunca me disse algo parecido, mas eu conhecia ou imaginava algumas vantagens minhas, que não eram materiais como no caso do Gatbsy, mas que me permitiram olhar a vida de uma maneira mais ampla, mais espacial e menos limitada, me possibilitando um controle maior sobre o meu destino e sobre as pessoas com quem me relacionei.

Mas isto ao mesmo tempo me tornou uma pessoa um pouco diferente do padrão. Tive poucos amigos íntimos, mais especificamente na adolescência e na juventude, antes de constituir minha família. Depois que me casei, foi afastando lentamente até que, eu me lembre, não restar um único amigo intimo.

Mas sempre tive um carinho especial pelas mulheres, talvez pelo fato delas terem mais sensibilidade e os assuntos não ficarem limitados a futebol, cerveja, churrasco e mulheres. Nunca entendi os três primeiros, na verdade até a faculdade gostava de jogar futebol, mas foi só mas também sei nunca esta coisa limitada e sem sentido é a alegria do povo: eles precisam de tão pouco!

Como eu disse, acho as mulheres muito interessantes, mas não para ficar comentando numa rodinha de marmanjos, mas cada um vive da forma que gosta.

E lá ia eu por caminhos desconhecidos, me inebriando com coisas absolutamente sem sentido para maioria dos mortais. Certa vez, na minha juventude e me lembro de ler Suave é a noite de Fitzgerald, um belo livro ao som da Flauta Mágica de Mozart, o meu primeiro contato com esta ópera. Foi uma experiência insquecível. A música consegue transformar um romance e eternizá-lo em nossas mentes como se tivessemos vivido tudo aquilo. Não sei se as pessoas sentem algo assim, mas só o que eu posso lhes dizer é que, são coisas que definitivamente tornam esta nossa vida, algo extraordinariamente mágico e belo, alguma coisa que já nos faz sentir saudades antes mesmo da partida.

Mas ela também sabe ser cruel. Olhando algo que escrevi em 1982, mais exatamente em agosto, 21 que, felizmente, não lembro mais o motivo, mas com certeza algo muito doído. Felizmente tenho péssima lembrança para as coisas ruins.

“Estas são as palavras mais amargas que já escrevi. A dor que se prenunciava, irrompeu numa intensidade quase insuportável, sepultando, num repente, dias verdadeiramente felizes.
Sempre que estruturamos razoavelmente nossas emoções, que articulamos nossos sentimentos, há um desmoronar súbito, lançando por terras as ruínas que nos sustentam.
Há uma profunda perversidade nas pessoas. A crença no gênero humano é tarefa para néscios.
Como é fácil destruir e como é difícil renascer. Morremos várias vezes e nascemos diversas outras. Não saberia dizer qual a mais dolorosa. Somos meros espectadores diante da realidade dos fatos.”

Felizmente não encontrei muitos relatos assim, o que mostra que a vida em geral é muito mais interessante do que as pessoas em geral dizem, reclamando de não terem mais contentamento e de viverem num imenso vazio.

E o mesmo Fitzgerald disse:
“Os guardas mais fortes são colocados ao portão que a nada conduz. E isto talvez pelo fato de ser o vazio uma coisa muito vergonhosa para ser divulgada.”

Já conheci a muitos e já senti que uma imensa maioria vive sem ambições, sem grandes objetivos ou objetivo algum, completamente perdidas no vazio que assomaram. As vezes isto me choca, tento mas não consigo ajudar. Uma coisa aprendi, se você tem seus sonhos, isto não lhe dá o poder de ser um vendedor de sonhos. Invariavelmente faço o esforço e invariavelmente não consigo transmitir aquela centelha que vai modificar a vida de uma pessoa. Não consigo transmitir ao mundo a beleza de nossa existência. “Ao mundo” é exagero poético, pois nem mesmo aos mais próximos tenho conseguido êxito.

Às vezes, por um minuto, temos a esperança, mas sempre sei que, logo, a pessoa irá retornar para sua realidade cinzenta e sem esperanças.
Esta falta de sonhos, de ambições, de vaidades, de desejos, fé, a despeito de todas as dúvidas, todas as oposições, parece ser cada vez mais comum no universo feminino. No masculino, não tenho a menor idéia. Talvez o futebol, cervejas e outras bobagens ajudem, não sei.

Em meus anos de trabalho em empresa telecom, pude sentir o imenso vazio que havia atrás dos olhares de companheiras de trabalho: a melancolia do irrealizável, da desesperança, da solidão, das ilusões perdidas, a descrença do amor e ao mesmo tempo na sua única esperança. Compreendi que , para uma mulher, o segredo da felicidade reside em encontrar o verdadeiro amor, esquecendo-se que, a felicidade está dentro de nós. Se não sabemos ser felizes conosco, não seremos com mais ninguém.

Um amor pode nos dar a felicidade plena, a confiança, a segurança para os momentos difíceis, mas não pode dar a felicidade para quem não a possui. Ela pode até acontecer, mas vai desaparecendo lentamente e se perde, às vezes para sempre.
To Be Continued 
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sábado, 25 de setembro de 2010

Dilma x Serra X Marina: A Máquina Petista (Cap 2) (by Rogerio Rufino)

O Partido dos Trabalhadores

Até o surgimento do Partido dos Trabalhadores que eu me lembre, não haviam partidos políticos profissionais no Brasil. Os partidos que existiam, eram herdeiros da contra-reforma e seus objetivos se limitavam a manter o status quo, a ordem natural das coisas: a riqueza com os ricos e a miséria com os pobres que, de vez em quando, recebiam uma esmolinha, o que se chamava de repartir o bolo. Claro haviam os partidos comunistas nanicos com ideologia, mas eram tão pequenos que se limitavam a uma rodinha de amigos de boteco.

O PT nasceu em 1980, formado por um grupo de intelectuais de esquerda , lideres sindicais e dirigentes católicos da Teologia da Libertação e se transformou numa seita quase messiânica, imbuída de um sagrado objetivo: assumir de forma gradual o poder absoluto no Brasil e de preferência para sempre.

Partidos assim não fracassam, perdem várias batalhas, mas nada, nada mesmo vai abalar a crença de seus seguidores que estão possuídos de sua missão de transformar este país desigual e injusto num Brasil justo e, acreditem, socialista. Ou seja, o fanatismo político e religioso, sempre peca nos seus desígnios finais, ao tentar estabelecer uma ordem que não é possível na sociedade humana, em que a afetividade e a agressão, infelizmente dividem os espaços quase que igualmente.

Socialismo só é viável na miséria absoluta. A alma do homem é capitalista e nada, não há condicionamentos capazes de mudar isto. O socialismo é um sonho distante e inviável, mas que permanece iludindo grupos de fanáticos e mesmo gente de bem e o resultado sempre foi a destruição de gente inocente para se atingir a sonhada revolução que “irá” por fim nas mazelas da humanidade.

Só na União Soviética, 20 milhões de pessoas morreram em prol da revolução e muitos gritavam o nome de seu líder, Stalin, enquanto eram executados no paredão, por ordens de seu amado líder. O comunismo, em certa época se transformou numa religião. Uma religião sem Deus nenhum. A imbecilidade e o fanatismo político são uma coisa só e não podem ser separadas e pelo visto nem tampouco contidas, fazem parte das distorções inerentes dos seres humanos e conseqüentemente da sociedade.


A Competência da Máquina Petista

Após algumas tentativas frustradas de alcançar o poder supremo, finalmente o PT venceu e instalou o seu representante lá: o presidente Lula. O líder sindical, escolhido pelos intelectuais que criaram o PT, para permitir que as massas se identificassem com o partido. Precisavam de uma isca, pois como todos sabem o povo não gosta muito de intelectual e vice-versa. E Lula serviu bem ao propósito. Na verdade foi uma simbiose com vantagens para os dois lados.

Os intelectuais conseguiram atrair as multidões e Lula, desta forma, continuou fazendo que mais gostava: não trabalhar e viver viajando pelo Brasil. Mas, esta convivência com a inteligência o transformou e para a surpresa de todos. Ele desempenhou seu papel na presidência de uma forma que provavelmente causaria inveja a Ronald Reagan e George Bush, dois símbolos da mediocridade e absoluta falta de conhecimentos que se deram relativamente bem, conseguindo se reelegerem para um segundo mandato. Bush filho, apesar de ganhar o segundo mandato de uma forma ainda contestada, infelizmente destruiu muito os EUA, o país vigoroso da era Clinton, transformando-o numa coisa levemente parecida com um país latino, ou seja, uma coisa muito ruim. De qualquer forma, Lula surpreendeu a todos o que revela uma inteligência grandiosa que a oposição jamais sonharia possível, demonstrando mais uma vez que cultura não é pressuposto para inteligência.

Mas o que mais me chamou atenção, foi a competência dos quadros técnicos do PT. Esta maioria silenciosa e invisível do governo que soube aproveitar todo o legado do FHC e ainda expandir suas conquistas e principalmente usá-las como capital político para a perpetuação do PT no governo.

O Bolsa Família é um exemplo, criado por FHC, que não soube aproveitar seu capital político para eleger seu sucessor ou não quis, talvez desejando no fundo entregar o país ao PT, para que este o levasse ao caos e as massas clamassem a volta de seu rei: sua alteza FHC.

O PT e sua inteligência focada no seu objetivo maior transformaram o Bolsa Família num capital político invencível. Se você vai a algum lugar do norte ou nordeste do Brasil, verá que a maioria do povo está satisfeita com o Bolsa Família e não querem mais nada na vida. Afinal, uma esmolinha e nenhum trabalho são o sonho de muitos brasileiros que antes não tinham nem trabalho nem esmolinha. E o PT sabe que isto é só o começo, logo as massas pleitearão algo mais, que terá que ser suprida, enquanto houver democracia e eleições diretas para presidente. Mas, não vejo compatibilidade do PT com democracia.

Expertise?

Esta história da quebra do sigilo bancário do Serra, pode revelar uma sofisticação sem precedentes na história política do país.

Todo sabemos que a imensa maioria da população, os descamisados, não estão nem ai para quebra de sigilo bancário de poderosos e acham mesmo que todos sigilos deveriam ser quebrados, afinal não possuem nada mesmo não têm o que temer e na verdade querem que os que tem alguma coisas se danem.

Ao mesmo tempo todos sabem que a classe média e os ricos tem horror a isto, pois todos têm a perder com a quebra de um sigilo fiscal, uma vez que as declarações de imposto de renda dificilmente retratam alguma coisa real. O famoso jeitinho brasileiro.


O Pecado Original

O maior problemas destes partidos nascidos de alguma vertente do socialismo, é sua vocação estatizante. Lula, segurou bem, mas o que se comenta é que Dilma tem apreço especial por uma empresinha pública. Dizem que o modelo do PT se baseia na NEP, a nova política Econômica implantada por Lênin na ex União Soviética e que sintetizou o período mais pacifico da revolução ali. Resumidamente, Marx e Engels só achavam possível o socialismo em países com um capitalismo moderno. Quando aconteceu a revolução, a Rússia era um dos países mais atrasados da Europa, um país semi-feudal. Portanto uma revolução socialista ali seria inviável, mas os camaradas resolveram fazer assim mesmo e Lenin, depois de ter assumido o poder, tentando fazer um remendo que permitisse o florescimento de uma nova ordem econômica, resolveu implantar sua NEP, na qual as grandes empresas permaneciam sob controle do estado e as pequenas e médias nas mãos da iniciativa privada. Até que funcionou, mas o camarada Stalin que sucedeu Lenin, achou aquilo muito sem graça e devagar e resolveu implantar a industrialização na marra, transformando a Rússia na segunda potência industrial do planeta e liquidando com pelo menos 20 milhões de camaradas russos.

Bem, por enquanto o PT fala apenas na NEP.

Obs. Lenin foi um líder revolucionário Russo e não um compositor de musica popular Brasileira.
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dilma x Serra x Marina: Faça a Escolha Certa ( 1 ) (by Rogerio Rufino)

Não gosto muito de política e minha participação mais incisiva num evento político se deu há muitos anos, mais exatamente no século passado, na grande manifestação das Diretas Já, na Praça da Sé em Sampa. Eu estava lá senhores, mais precisamente num sebo de livros, procurando, no meio de prateleiras empoeiradas, pockets books americanos para comprar. Enquanto isto, lá fora, a multidão entoava canções e vibrava com os discursos de vários políticos, incluindo nosso presidente, Lula, que na época ainda não tinha o seu atual formato de tonel de carvalho.

Outra manifestação cívica que participei, juntamente com minha família, foi num 4 de julho em Washington, o qual passamos juntamente com uma pequena multidão de americanos patriotas, em um gramado bem em frente ao monumento a George Washington. Na saída, caminhávamos com a multidão e minhas meninas começaram a cantar uma musiquinha de um filme sucesso na época, e as velhinhas americanas responderam com o hino nacional, cantado com ímpeto e verdadeiro patriotismo dos bravos que lutaram pela independência. E aí eu pude compreender porque tantas bandeiras americanas tremulam nas casas americanas: a independência ali, foi conquistada na marra, com sangue, suor, dor e lágrimas.

A nossa, foi conquistada por recomendação do império Português, após uma bebedeira desenfreada dos independentes e do príncipe regente. Talvez seja este o motivo porque só se vê bandeiras do Brasil tremulando nos lares brasileiros em época de copa do mundo. Certa vez coloquei uma bandeira brasileira na fazenda. Assim que a viram, meus funcionários correram desesperados para suas casas, pensando que a copa tinha começado. Foi chato, tive que tirar. Bem, não importa cada povo com suas tradições.

Dilma, a escolhida do presidente Lula

Atualmente temos um presidente populista de esquerda, alguém que se tornou maior que o  próprio partido, o PT. Com 80% de aprovação popular, ele pôde conter a ala radical e perigosa do PT. Com esta aprovação na verdade, ele pode fazer o que quiser. Ele poderia até mesmo eleger seu filho Lulinha ou Dona Marize, mas ele foi até generoso, e fez outra escolha. 

Vai até se candidatar ao Oscar, com seu filminho. O culto a personalidade é comum em qualquer regime ditatorial, Stalin, Fidel, Perón, Hugo Chaves etc. O nosso ainda é democrático, mas o presidente e seus correligionários vivem tentando cercear a liberdade de imprensa e “Uma vez amordaçada a imprensa não importa por quais motivos, a ignorância inegavelmente entra em cena, incontrolável.” Heberto Padilla.

O presidente Lula, escolheu pessoalmente sua candidata a sucessão, contrariando alguns setores do partido. E o fez por dois motivos:

1) Dilma praticamente salvou o presidente Lula do impeachment na época do mensalão e segundo a figura insuspeita de Pedro Simon, o processo já estava pronto para ser instaurado. Então, sai de cena José Dirceu e entra Dilma em seu lugar, e tudo mudou. Ela conseguiu reverter a situação e salvar o presidente. Sem dúvida, é muito competente.

2) Ele a escolheu porque ela é uma técnica, sem carisma, e sem chances mínimas de se tornar maior que ele, ofuscando-lhe o brilho.

Este raciocínio é muito comum no mundinho dos executivos. Um chefe sempre irá contratar alguém que não tenha possibilidades de brilhar mais que ele e acabar tomando seu lugar. E se alguém começa a brilhar mais que o devido, logo são enviados os executivos avatares com a missão de neutralizá-los. O executivo Avatar é um ser dissimulado e pegajoso, enviado pela alta direção para ver se tem alguma coisa errada na empresa, como mau olhado, olho gordo e outras cositas mas e eliminá-las, com requintes de crueldade.

O grande Fernando Henrique também agiu assim, errando lamentavelmente, ao não apoiar enfaticamente o candidato do PSDB a sua sucessão e até mesmo tecendo elogios a Lula, dizendo que era chegado a hora dele, o líder operário. Imagino que, FHC pensou que toda falta de conhecimento, experiência administrativa e de cultura de um líder operário, seria um desastre total, e que logo todos estariam pedindo o seu retorno. Ledo engano.

Na verdade, FHC foi o grande responsável pelas bases do Brasil moderno de hoje, mas não conesguiu capitanear este feito junto aos ”descamisados” e sequer junto a classe média. Demasiadamente culto e capaz, não teve a humildade necessária ou não quis, para se tornar um líder popular. Ficou magnânimo, acima de todos, no seu Olimpo. Mas passará a história, como o grande responsável pelo Brasil grande, o Brasil moderno e sem inflação. Mas esta é outra história.

Voltemos a Dilma. Vi alguns pronunciamentos dela, firmes. Mas a vi também gaguejar em entrevistas. Isto demonstra certa angustia, típica dos técnicos competentes, que ao serem questionados, normalmente por perguntas idiotas, não conseguem ter e transparecer a tranqüilidade necessária de um líder da nação. Não possuem o perfil político. Vale lembrar que um dos presidentes americanos de maior sucesso, era Ronald Reagan, desprovido de muitas luzes, mas que,  como Lula, soube-se assessorar de pessoas competentes e com elas decidir pelo mais sensato.

Um técnico competente como Dilma não se sujeitará a este papel e tentará impor sua verdade absoluta e é ai que as coisas começam a complicar, gerando tensões, e inimizades e disputas políticas e finalmente o “Até tu Brutus”, o conluio, a traição e aniquilação do agente indesejável, pela camarilha política, que desde o império Romano, se comporta no mesmo modus operandi. Além disto, um técnico na presidência, não tem muito sentido. O presidente não é um executor, ele é o CEO da nação. Cabe a ele decidir as linhas mestras e conseguir que sua equipe trabalhe unida e coesa nas suas execuções.

O Passado de Dilma

Dilma lutou contra a ditadura militar, da maneira mais enfática possível: a luta armada. Iniciei na faculdade lá pelos idos de 78, e nesta época conheci alguns idealistas de esquerda, os comunas como eram chamados. Possuíam um fanatismo religioso pelo comunismo inabalável, embora a maioria nunca tivesse lido Max ou Engels. Não, estavam ali pela luta de classes, a revolução que iria entregar o poder as massas. E acreditavam piamente nisto. Em todos eles eu percebia misteriosa atitude do corpo para ocultar os defeitos da mente. Ressentimentos, complexos e uma miríade de problemas psicológicos, levavam aqueles idealistas a lutar pelo bem estar das classes e a implantar o comunismo, nem que tivessem que matar os componentes das tais classes, um a um. Verdadeiros homens bomba, acreditavam piamente que matando, tirando a vida de outros seres humanos, iriam levar a humanidade para o paraíso. Quanta besteira eu vi, meninos.

Dilma provavelmente foi um destes xiitas que lutavam para uma causa maior, estando disposta a roubar e a matar por isto. Os meios justificavam os fins, afinal, se consideravam em guerra contra o governo. Triste América Latina. Não me lembro de guerras entre países neste continente, exceto as do século 19, guerra do Paraguai, ordenada pela Inglaterra. Aqui se prefere guerrear contra a população, pois guerrear contra outro país parece ser ilegal. Os governos matavam pessoas, os guerrilheiros matavam pessoas e soldados, mas ninguém deu um tirinho no país vizinho.

Hoje tudo isto parece distante e eu sinceramente, acho difícil admitir o fato que um civil se treinou para matar, roubar e praticar atos de destruição, mesmo que isto signifique lutar em prol da humanidade. Vivi naquela época, mas mesmo assim tenho dificuldades com isto. 

O mesmo penso da ditadura que, praticava a mesma coisa por outros ideais. 
E no final,  a liberdade foi finalmente conquistada, não graças a luta destes grupos armados, mas simplesmente porque o milagre econômico acabou com a crise do petróleo e os militares, que lutavam internamente com os grupos terroristas, cada qual com sua ideologia, acharam melhor entregar o país de volta a legalidade. No que fizeram muito bem. No exército também haviam os democratas e que trabalharam na medida do possível para neutralizar os radicais e reinstalar a democracia.

Os terroristas, eram os radicais da esquerda. Radicais, quer de esquerda ou direita, são a desgraça do mundo. Mas um radical pode mudar?
To be continued
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domingo, 19 de setembro de 2010

Ultrapassagem (by Ir. Selma Cristina Santos, Lisboa)

Irmã Selma Santos
Por vezes me surge uma ideia absurda e meio invulgar, será que realmente de fato existimos, ocupamos um espaço, dominamos uma vontade, optamos por algo? Parece algo impensável ou irracional, mas qual é o domínio que realmente tenho do momento que vivo? Existem tantos porquês sem respostas…que ninguém nunca saberá, por isso acho que a vida é uma ultrapassagem sucessiva de pedaços, de esforços, de conquistas, de derrotas, de subidas, de quedas, de memórias, de esperança, de incertezas, de lágrimas, de decepções, de incompreensões, de desalento, de arrebatamento, de euforia, de perdas, de ganhos, de sentimentos inúmeros, incontroláveis, de objetivos. 

Eu sou única, eu sou quem menos se sabe explicar, eu sou dor, eu sou chama ardendo no chão, eu sou seresta, eu sou lágrima, eu sou pouco, eu sou espera, eu sou eu, solidão…minha dor é minha e não sua, por mais que outro queira partilha, sou solidão na minha ferida que dói só em mim, meu grito é meu na noite escura e meu medo é todo meu de errar o caminho…mas se eu não partir nunca saberei que sabor tem a dor, a queda, o negrume da noite, se eu não partir nunca conhecerei os amigos que as curvas me reservam, pessoas que nascem qual flor, como orvalho silente na noite de luar, se eu não partir não saberei o calor da mão amiga, o ninho do ombro que me acolhe, se eu não utltrapassar a mim própria não saberei o quanto dói despedaçar o corpo na subida, mas nunca saberei o quanto é gratificante a visão arrebatadora das alturas, de lá a visão é única e intransmissível, só eu posso ver, só eu posso sentir o vento no rosto, só eu posso registrar na retina a visão panorâmica da  minha vida, minha única vida, tão minha, só minha e de mais ninguém.

Há tantos segredos em existir tanto mistério, tantos desafios, viver não é fácil, viver é fascinação, é lançamento vertiginoso, é ir, é ir, é ir não se sabe onde, ninguém consegue chegar a mim, nessa viagem para o interior da existência humana, quantos serão os meus dias? Saberei eu atinar com o caminho? Sei que não nasci para ficar na estagnação do cais é preciso salvar a todo custo minha alma de peregrina, de apaixonada do Absoluto, por isso ultrapasso meus limites, porque são meus e eu sei que eles existem, por isso singro os mares das intempéries que o mar da vida me oferece, prefiro as águas tumultuosas às águas plácidas, porque só elas testam minha capacidade de viver sobre pressão, é bom assim, só assim avalio a qualidade que minha vida tem, a trajetória que faço é retilínea ida sem volta, e voltar seria morrer…e vou cortando os mares, ultrapassando a foz para desembocar no meu originário, quando enfim eu chegar e meu barco atracar no Porto Seguro aí sim respirarei aliviada, então finalmente terei chegado em CASA, aí sim começarei realmente a minha VIDA.
Ir. Selma Cristina Santos, Lisboa, 19-09-2010

“AH, OS PRIMEIROS MINUTOS NOS CAFÉS DE NOVAS CIDADES!
A CHEGADA PELA MANHÃ A CAIS OU A GARES
CHEIOS DE UM SILÊNCIO REPOUSADO E CLARO!
OS PRIMEIROS PASSANTES NAS RUAS DAS CIDADES A QUE SE CHEGA
         E O SOM ESPECIAL QUE O CORRER DAS HORAS TEM NAS VIAGENS…” (FERNANDO PESSOA)
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Vivemos de Nossas Memórias (by Rogerio Rufino)

Guimarães Rosa já dizia que toda saudade é uma espécie de velhice mas às vezes vivemos intensamente de nossas memórias e segundo Paulo Francis, na primavera a crueldade é maior porque a natureza renasce e nos lembramos mais vivamente de que já ousamos tanto e sentimos tanto antes que a multidão nos atropelasse.

Com certeza Francis ousou muito e conseguiu muito mas, certamente teve lá suas frustrações. Mas no geral nossas memórias são boas, como  que alguma coisa harmoniosa e warming batendo as nossas portas e querendo entrar. 
Eu não sei por que, mas nos lembramos de certos quadros (some nice pictures), um rosto, um gesto, uma música, uma paisagem, mas há sempre alguém a mais no quadro pois, na  verdade, não nos lembramos de paisagens ou coisas isoladas, e sim da interação dos sentimentos com todo o ambiente que nos cerca naquele momento especial. Há algo de muito sublime na relação de duas pessoas, quando as mentes e corpos entram em ressonância e tudo parece ser um, se encaixando perfeitamente naquele ambiente de frágil equilíbrio, pois como tudo de bom na vida, dura pouco.

Basta que uma das condições do ambiente se altere, uma simples mudança de luz, o fim de uma música, ou alguma coisa aparentemente banal, para que o quadro se modifique e cada um seja trazido de volta a sua realidade. A realidade de duas pessoas únicas, com emoções e sentimentos próprios. Mas são momentos especiais e que jamais serão esquecidos e que tornam nossas vidas mais completas e mais sublimes.

Mas às vezes as memórias são vagas e fugidias, e nos lembramos de glimpses apenas, alguma coisa que capturamos em um piscar de olhos, um sorriso, um gesto ou um rosto. Estas pessoas, passaram por nossas vidas, mas como disse Drummond, existem hoje em subterrâneos, umas na memória, outras na argila do sono. Mas sem dúvida também complementam nossas vidas.

Em nossas juventudes, as lembranças são as vezes perto de inesqueciveis;  as vezes muito dolorosas, pois nesta fase somos guiados por hormônios em ebulição, que nos fazem sentir paixões arrebatadoras e ao mesmo tempo memoráveis, mas que normamelmente terminam após o primeiro contato físico, pois não eram, com certeza, amor. Some aimless infatuation in which,for the moment, you feel like indulging. (Meet Joe Black)

As lembranças da infância são menos charmosas, pois esta é a única fase que nos lembramos de coisas desassociadas de um contato humano. Mas, são belas, musicas e cenários, pelo menos em mim é tudo o que restou. As brincadeiras ou fantasias perdem toda a importância que um dia tiveram e se restringiram a sua época, pois o que nos importa agora são as sensações, as emoções humanas. 

Um ótimo lugar para revivermos certos momentos perdidos na memória, é nas estradas, a noite e com o som ligado e sozinhos. E elas jorram espetaculares, e vão nos envolvendo numa atmosfera única, alguma coisa muito sublime que nos faz sentirmos agradecidos por viver, as vezes completamente plenos .  Where you can wake up one morning and say "I don't want anything more." (Meet Joe Black)

Nada mais rico do que as memórias de outros país. Viajei por 22 estados dos EUA, de carro com minha família, certa vez, em vinte dias. São 12 mil milhas de memórias, pois tudo era  novo e desconhecido. São memórias que enriquecem uma vida e nos faz querer reviver àqueles momentos que nunca mais voltam, passaram, pertencem a outro mundo.

Isto realmente não tem preço, lembro de detalhes bobos como: deitados num gramado em alguma Rest Area  em North Dakota, ou dirigindo numa montanha gelada em Montana e a neve caindo em pleno verão, ou as paisagens lunares de Utah, enfim uma interminável sucessão de coisas definitivamente muito boas e principalemente ao som de november rain, uma das mais belas canções que eu conheço, fora os clássicos,  claro.

Os momentos com a família, com minhas meninas em todas suas fases são inesquecíveis, e principalmente os momentos mais sublimes com minha esposa, quando nos tornamos um corpo apenas e que não precisamos de palavras e vamos trocando emoções, sentimentos e sonhos sem sons, apenas nos olhos, nos toques, no cheiro dos corpos. É o mais próximo que duas pessoas podem estar e se conhecer completamente. A comunicação verbal se torna desnecessária e obsoleta pois agora ela se processa no perfeito equilíbrio das ondas cerebrais.

Mas um homem e, lógico,  uma mulher também, é feito de memórias de outros momentos  também,  dos namoros infantis, na adolescência, na juventude. Pertencem a um passado , mas eles existiram, e não carregam em si nenhum mal.

Lembro-me de coisas tolas, como certa vez que a luz do sol cobriu de dourando a paisagem a nossa frente, e no carro tocava um adágio de Bach, num de seus concertos de Brandenburg. Foi sublime e durou minutos. E  foram vários momentos semelhantes, em toda a minha existência.

Bach é imprescindível e torna qualquer namoro algo de inesquecível.

Mas hoje tenho a consciência que estes  momentos foram muito mais inesquecíveis pela conjunção de fatores e não necessariamente por esta ou aquele componente.  Ou seja, tudo tem uma importância apenas relativa,  como se fossem partes de uma peça musical.  Em se faltando qualquer delas em cena, o resultado é diferente e pode não ser tão encantador. Mas não importa, o fato é que aqueles momentos, um dia foram gravados para sempre  em nossas memórias. É o que realmente importa. 
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domingo, 12 de setembro de 2010

Vivendo Perigosamente (Parte II- Acidente de Carro) (by Rogerio Rufino)

Nunca gostei muito de carros. Não sei dizer de qual marca e muito menos qual modelo são. Acho a maioria igual, em geral de muito mau gosto tirando um ou outro. Mas curiosamente gosto de jipes, talvez porque em minha infância via aqueles filminhos de guerra que tinha uns jipinhos americanos que enfrentavam os panzers alemães e, acreditem, os destruíam. Nós, crianças, vibrávamos como o poderio americano e seus jipinhos.

Alguns anos depois, não pude evitar certa melancolia, quando eu descobri que o exército alemão normalmente fazia picadinho dos exércitos americanos e ingleses e que só encontraram um inimigo a altura no exército soviético, que após resistir bravamente por 900 dias de invasão alemã, reuniu suas forças e expulsou o exército alemão da Rússia, empurrando-o  de volta à Alemanha e se tornando o primeiro exercito aliado a conquistar Berlin. E só parou por aí porque os americanos, que já estavam com a bomba atômica para ser testada, pediram "gentilmente" para o ditador Stalin estacionar seu exército vermelho em Berlin. 

Do contrário, o sanguinário Stalin (responsável pela morte de 20 milhões de russos) só teira parado em Portugal e Inglaterra e o mundo seria bem diferente, provavelmente bem pior, pois não existe nada pior que governo socialista ou comunista de carteirinha. O sonho de nossa futura presidenta. 

Mas assim que entrei definitivamente para o mundo rural, lá pelos idos de 2004, comprei o meu jipão com motor potente (de trator) a diesel. Pesava umas 2 toneladas, e fazia mais barulho que um caminhão Scania turbinado, mas eu o dirigia feliz e...empoeirado, muito empoeirado. Descobri que os jipes sugam o ar em sua janela traseira e  que toda aquela poeira que você vê pelo retrovisor de seu carro quando anda numa estrada de terra, é sugada para a cabine de um jipe, uma beleza. 

Definitivamente aquele carro não combinava muito com um ex-executivo. Lembro-me que alguns companheiros meus atingiram o máximo na escala tupiniquim de executivos fashion: adquiriram o seu primeiro BMW. Naquela época isto impressionava a turba ignara, ou seja, os representantes das classes não executivas e mesmo algum ou outro executivo iniciando na carreira, e que ainda estava a meio caminho, andando numa carroça nacional de luxo.

O sonho do executivo fashion é ter a sua Ferrari, um carrinho que nunca me impressionou, e que a primeira vez que vi foi por acaso: estava saindo de um restaurante em Rockville, Md com minha família, quando um pequeno china estacionou sua poderosa Ferrari bem a nossa frente. Uma das minhas meninas olhou aquela coisinha desconfortável, barulhenta e brilhante e disse: 

- Legal, ele comprou um carro adequado para a idade dele.

Quanto aos BMW perdi o meu respeito depois do seguinte dialogo com o namorado de uma de minhas filhas, que sempre aparecia com um BMW novo:

- Mas você gasta muito dinheiro nesses carros, hein?

- Na verdade nunca comprei um carro, faço um leasing, uso por 2 anos e troco por outro zero, custa apenas 225 dólares mês por BMW. Lá em casa tem 8, dois para cada um. 

Eu que tinha um único Ford Taurus usado e comprado a vista, fiquei mudo e com peninha de mim e mais ainda dos executivos brazucas que pagavam e ainda pagam verdadeiras fortunas  para possuírem suas reluzentes BMWs, graças aos nossos impostos e taxas de juros maiores do mundo. 

Quando comprei meu jipão, os hammer ainda eram famosos, aqueles jipes do exercito americano em Bagdá. Como eu não podia comprar um Hammer, comprei um jipão nacional, tecnologia tupiniquim, sim senhor, que iria fazer com que, mais uma vez, os europeus se curvassem diante do Brasil. Você sabe quando foi a primeira vez? Não me lembro.

Depois, descobri que era verdade: se exportado, todo europeu que o adquirisse, viveria curvado para sempre, para catar alguma peça que se soltasse ou para consertar alguma coisa que quebrasse. É senhores, mais um orgulho da indústria nacional, o jipe CBT que ao lado da Gurgel, disputam o troféu de pior indústria automobilística mundial. Você não se ufana? Tenho certeza que sim.

Mas o jipe, depois de umas 30 consultorias, estudos de case e reengenharia, ficou melhorzinho, como ficam as empresas após as tradicionais mudanças de fim de ano. Ou seja, durou mais um pouquinho.

Foi divertido, costumava descer até as partes mais baixas e acidentadas da fazenda, próximo a represa da companhia Hidrelétrica. Ligava a tração 4x4 e reduzida, e ele entrava em qualquer lugar. Certa vez, fui buscar uma bezerrinha holandesa cuja mãe havia parido num local de difícil acesso. Achei uma aventura histórica, a bezerrinha deitou-se no banco do jipe e veio dormindo. Quando cheguei no curral, meu peão disse:
- O senhor poderia ter me deixado ir a cavalo, o senhor esqueceu-se de trazer a mãe.
- Mas não cabia no jipe.
- Tá bom, mas da próxima vez eu vou a cavalo.

Vendi o jipe, mas confesso que é o único veículo que sinto falta. Sem capotas então, é muito divertido.

Normalmente, sempre dirijo devagar, mas naquela manhã eu estava com pressa. Era sábado e  precisava chegar até uma  cidadezinha a uns 30 km da fazenda, antes do comércio fechar. Não que fosse demasiadamente importante ou necessário, poderia esperar, mas são justamente coisas assim, que nos induzem a uma série de erros e distrações. 

Dizem que a maioria dos acidentes fatais acontece, quando a pessoa pega o carro para comprar alguma coisa num mini shopping qualquer, a poucas quadras de sua casa, e por ser tão perto, ela não coloca o cinto de segurança justamente por achar que naquele percurso tão curto e conhecido, nada pode acontecer.

As estradas, de cascalho, até que estavam boas. E lá ia eu, com minha pick up de 4 meses apenas, dirigindo a uns 70 ou 80 Km por uma estrada estreita, de mão única, coberta de uma vegetação exuberante, pois era verão, tempo das chuvas, época em que a natureza se apresenta todo seu esplendor. No som do carro, David Gray entoava uma de suas mais belas canções, Meet me on the Other Side, que nos conduz a uma atmosfera perturbadora, como que se alguma coisa cinzenta, desolada e ruim quisesse entrar. Não sabemos o que é, mas certamente não é deste mundo.

Infelizmente a estradas tem suas sinuosidades, e os capinzais exuberantes em suas margens, não permitem uma visão em toda sua extensão. E assim eu vejo surgir a uns 80 metros a minha frente, a frente escura de uma camionete grande e antiga, ela vinha lentamente como que surgindo do nada, alguma coisa de muito ruim que acabara de entrar no meu mundo, completamente absorto com a música e meus pensamentos. 

Tudo que transcorreu então foi muito rápido, coisa de segundos, mas vou contar como tudo me pareceu, alguma coisa próxima a eternidade.

Nossa primeira reação é frear, o mais forte possível, mas estranhamente nada acontece, a píck up desliza no cascalho aparentemente na mesma velocidade. Neste momento não há sons, embora a musica continuasse tocando normalmente, mas você não ouve, tudo no mais absoluto silêncio, e a camionete que era um ponto cinza no horizonte começa a se avolumar e já podemos ver seus detalhes, sua grade frontal, mas ela não quer parar. O silêncio é total e você começa a distinguir pessoas no interior do outro veiculo e elas parecem petrificadas, como que vindas do além.

Lembro de um filme japonês, um clássico, no qual um senhor que trabalhou uma vida inteira numa empresa recebe sua carta de demissão. Daquele momento em diante o diretor, genial, cortou totalmente o som, e o velho homem começa a caminhar pelas ruas absorto em sua tragédia pessoal, até que sons  ensurdecedores da buzina de um ônibus o desperta e a todos na platéia, e ele finalmente volta a sua realidade nua e crua.

Nos momentos de grandes perigos ou grandes tragédias, parece que nosso cérebro, foca exatamente naquilo que esta prestes a acontecer ou no recém acontecido. Não há sons, cheiros, apenas a visão continua.

Finalmente a camionete pareceu gigantesca bem a minha frente, e antão alguns estilhaços, fumaça e dor, o corpo sem o cinto de segurança, pois o que poderia acontecer numa estrada que passo todos os dias, é atirado para a frente violentamente em direção aos destroços retorcidos e estilhaços de vidro e metal. A cabeça bate no porta sol, e toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido e o corpo volta violentamente para trás, a nuca batendo violentamente na proteção de pescoço e depois não há mais certezas, as vistas escurecem, por milésimos de segundo, 1 segundo, nunca se vai saber.

Digamos que a batida se deu a 50 km/h. Neste caso sofri uma desaceleração 100 vezes superior à da gravidade. Como peso 85 kg, é como se eu fosse esmagado por um peso de 8,5 toneladas. Então, o desfalecimento, embora, eu não tenha percebido, é real, pois minhas células continuaram a viajar na mesma velocidade que a do carro, mesmo após a batida. É como se meu corpo fosse um coletivo carregado de pessoas e ao bater o que acontece: todas elas são arremetidas para frente e vão se amontoando na frente do veículo. Isso acontece muito com os aviões, nos quais até os bancos costumam ser arrancados e juntamente com os corpos dos ocupantes vão destroçando tudo a sua frente,  pois a energia precisa ser dissipada de alguma forma.

Quando recuperamos os sentidos, tudo se passa numa outra dimensão de tempo e espaço, tudo parece estranhamente lento e sem cor, o mundo ficou  cinza e em slow motion. Você vê as pessoas se movimentando, sabe que elas falam ou gritam algo, mas ainda não há sons. 

De repente a dor irrompe de forma absoluta, e vai-se ramificado do pescoço em direção aos braços e costas, onde toda energia cinética se dissipou. Então o cérebro manda o alerta, é preciso fazer algo, e eu me lembro que sempre mantenho um celular dentro do carro para emergências, protegido em baixo do banco. Saio do carro, e me animo um pouco, pois consigo andar, com dificuldades devido a dor insuportável, mas ligo para minha esposa, que me pega e me leva para o hospital. 

Foi uma das viagens mais longas que eu fiz, pois tudo era estranho, a dor e um receio vago de alguma lesão, eram definitivamente perturbadores. Acho que vamos de alguma forma preparando para o  pior, mas tudo isto numa estranha atmosfera de completa solidão, sem memórias, arrependimentos, sentimentos ou desejos. Era como se o tempo tivesse parado a espera de algum acontecimento de alguma coisa que ainda estava por vir.

E no hospital tudo continua mais perturbador ainda, eles olham , fazem exames e levam umas 2 horas para finalmente alguém dizer: felizmente não houve nada, rapaz de sorte.

É como se retornássemos a vida após alguma viagem a algum lugar desconhecido, como acontece às vezes nos pesadelos. Queremos fugir, mas não podemos, tentamos, resistimos, mas não conseguimos nos libertar e finalmente, já quase sem forças, acordamos e sentimos a vida voltar.

No outro dia já estava trabalhando normalmente, apesar do pescoço ter doído ainda por um mês.

Máxima: Usem cinto de segurança e evitem ouvir a canção meet me on the other side no carro.
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sábado, 11 de setembro de 2010

Vivendo Perigosamente (Parte I) (by Rogerio Rufino)

A maior parte de minha existência transcorreu num ambiente tranquilo, sem grandes preocupações nem grandes tristezas e acho que o mesmo acontece com a maioria das pessoas. Outras experimentam desde as mais tenras idades tragédias espantosas, o que nos faz imaginar como conseguem superá-las e chegamos mesmo a admirar e considerá-las seres superiores. Frequentemente, quando assistíamos casos assim, eu sempre dizia para minha esposa: tem pessoas que são muito maiores que a maioria de nós.

Sucuri                                                 Jararaca


Mas a verdade é que, procuramos fugir destes assuntos, eles não nos fazem bem, são demasiadamente tristes para serem contemplados sem que criemos uma atmosfera opressiva, melancólica, que acaba nos subjugando. Melhor não saber, silenciosamente preferimos esquecer, desejando que nada semelhante aconteça conosco.

Mas quem já leu o grande Os Sertões de Euclides da Cunha, que na opinião do poeta americano, Robert Frost, é maior obra da literatura das Américas, coisa que a maioria dos brazucas (futebol e carnaval) desconhecem, vai se lembrar do seguinte trecho, no qual o autor fala do sertanejo nordestino:

“Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer.” (Os Sertões)

Este ano de 2010 experimentei um pouco destas ciladas e surpresas repentinas que as vezes a vida nos premia:

Em janeiro deste ano, estava com minha esposa na fazenda. Era noite, aproximadamente 9 horas e assim que nossas visitas foram embora, minha esposa, decidiu fazer aquilo que as mulheres adoram, molhar as plantinhas, aquelas coisinhas sem graça que elas criam nuns vasinhos, e que até hoje não sei bem para que servem. Alguns dizem que é para criar o famoso mosquito da dengue, eu não sei.

Como toda mulher, ela nunca acerta bem quais interruptores acendem determinada s lâmpadas. Se vocês observarem, uma mulher nunca irá decorar, e para acender uma lâmpada, irá teclar frenéticamente todos interruptores até acertar.

Claro, após apertar alguns interruptores sem sucesso, ela  foi no escuro mesmo, em direção a piscina e ao pisar na área da sauna, a cilada repentina: foi picada por uma cobra do tipo jararaca, muito comum no sudeste do Brasil. E como toda mulher, estava com a tristemente conhecida como a mais famosa invenção nacional: a chinela havaiana. Bem, se é havaiana, é provável que copiamos, mas esta é outra história.

Felizmente, é uma mulher muito inteligente e teve o raciocínio rápido para diagnosticar a leve picada, mas correu o risco de ser picada mais de uma vez, pois mesmo assim avançou e acendeu a luz da área para ver a cobra, e me gritou. Felizmente lá só tem um interruptor.

Quando ouvi seu grito, confesso que gelei, pois nunca vi ninguem ser picado por uma cobra e o primeiro tinha que ser justamente minha esposa?

Descobri depois que muitas pessoas morrem, simplesmente por acharem que se feriram em algum ramo ou espinho e quando a veneno começa sua jornada destruidora, aí já pode ser tarde demais.

A Jararaca é uma cobra do Gênero Bothrops, responsável por 90% dos 20 mil acidentes ofídicos que acontecem todo ano no Brasil. O seu veneno é devastador, causando necrose generalizada nos tecidos e hemorragias. Como o médico disse, ele vai dissolvendo os tecidos literalmente à medida que vai se espalhando a partir do local da picada.

Acendi todas as luzes e corri até minha esposa, e a primeira coisa que vi, foi um gota de sangue em seu calcanhar e bem a sua frente no piso cerâmico branco da área, uma jararaca absurdamente nervosa, dando botes até nas paredes.

Nestes momentos não sabemos muito o que fazer, pois como eu disse no início, aquilo que não desejamos que nunca aconteça, não procuramos nos informar corretamente e eu só lembrava que, não podia usar torniquete nem cortar o local da picada. Só lavar. 

Em segundos a dor já era intensa. Segundo minha esposa, é algo indescritível, pior do cólica renal. Como não tive uma nem outra, não tenho muita noção. 
Mas esquecemos, de algo muito importante, a pessoa ofendida, não deve andar. Deve fazer o mínimo de esforço possível para que o veneno não se propague mais rápido ainda.

Peguei a única coisa que vi ali, o aspirador da piscina e dei uma pancada na cobra, que ficou lá estirada. Um funcionário da fazenda, ouvindo a gritaria de minha esposa, chegou rapidinho, e disse que a cobra ainda estava viva e acabou de matá-la, colocando-a em uma caixa para sua identificação posterior e consequentemente, a escolha correta do soro a ser usado.

A fazenda fica a 30 Km da cidade mais próxima, e nossa primeira intenção era seguir para Uberlândia a 100 Km. O que seria uma besteira imensa. Felizmente minha esposa ligou para nosso sobrinho Noslen, que é assessor direto do prefeito, e quando chegamos ao posto de saude da cidade, ele já estava lá esperando com médico e tudo. E para nossa sorte, o médico de plantão naquele dia, Dr. Aroldo, tinha morado 10 anos no Mato Grosso, onde se tornou um especialista em acidentes ofidicos.

A viagem até a cidade foi muito difícil, pois é uma estrada vicinal, de terra, com muita s pedras, e eu ficava pensando, se for devagar é ruim, se correr, arrisco a estourar um pneu e ai vai ser uma  tragédia. Mas chegamos. São aquelas viagens intermináveis, eu tentando ser o mais lógico possível, minha esposa numa dor horrível, pedindo para ir mais rápido, mas felizmente consegui me controlar e não cometer um erro qualquer.

O médico nos disse que o ideal é aplicar o soro em até 30 minutos. O dela foi aplicado após 1 hora, mas a grande experiência do médico, foi responsável, por não ficar qualquer sequela, em função da ação fulminante do veneno. Nem marca sequer restou. Perfeito, mas mesmo assim, ela teve que ficar 3 dias em um Hospital já em Uberlândia e quase um mês sem conseguir andar direito. Como é determinada, fez a fisioterapia necessária, o que lhe permitiu recuperar 100% dos movimentos do pé.

Até então eu não tinha o menor medo de cobras, talvez graças aqueles malucos do Discovery Channel, que vivem correndo atrás delas sem o menor temor. Sempre andei no pasto despreocupadamente, às vezes a noite, principalmente na beira da represa e mesmo em áreas de brejo. Era como o personagem do Granham Greene em O Americano Tranquilo. Não tinha receio de  nada por simples inocência.

Certa vez capturamos uma sucuri de quase 5 metros, que havia pego um bezerro de  180 kg.  A cobra pesava uns 80 Kg e tinha uma força estraordinária. Nós  salvamos o pobre bezerro, que na verdade era muito mais forte que nós, mas ela havia mordido  em seu pescoço e o estava arrastando para agua e ele não podia fazer muita coisa: só berrar e como berrava o infeliz. 

Toda a ação ficou parecendo coisa de cinema pastelão, a cada instante  alguem levantava voo, atirado ao espaço pela contrações da serpente.  Finalmente sujos e descamisados, conseguimos subjugar a  sucuri pelo cansaço. Obs.: O Ministério da Saúde não Recomenda este tipo de ação.

Outra vez, ouvimos gritos agonizantes de um animal que não identificamos e corremos feito um bando de malucos  nos embrenhando na mata fechada que cerca uma das nascentes da fazenda. Outra sucuri, talvez maior, talvez igual, havia  pego um tamanduá bandeira e conseguimos salvar o bicho. A cobra porém conseguiu se esquivar, pois estávanos em seu habitat , o solo era coberto por uma lâmina dágua de alguns centimetros.

Certa vez, para desespero de uma mulher que trabalha na fazenda, eu encontrei uma jibóia dormindo tranquilamente em uma das árvores em volta de minha casa. Não tive duvidas, como os malucos do Discovery, peguei a bichinha, de quase 2 metros com as mãos, e a levei para uma reserva da fazenda onde a soltei, para que ficasse protegida e voltei feliz como um ecologista realizado. Na verdade a cobra jiboia não é venenosa, mas sua mordida pode causar uma infecção perigosa. Mas ecologista amador é coisa mais patética que há. E outro erro comum, é que cobras são muito parecidas e como não somos especialistas, podemos confundí-las. E se não fosse uma jibóia. Dei sorte.

Ficava fascinado quando me  deparava com uma sucuri dormindo tranquilamente ao lado de uma nascente. Aproximava o máximo que eu podia, sempre lembrando de uma cena que vi, uma naturalista, entrando num igarapé amazônico e saindo da água com uma anaconda de uns 10 metros nas costas. Se uma mulher podia, então uma anaconda era tão perigosa como um ursinho de pelúcia.

Passados uns bons minutos, a sucuri mergulhava nas águas e desaparecia e eu continuava lá esperando que ela voltasse. Não voltava. Por sorte nenhuma me atacou, pois não há muito o que se pode fazer contra a sua força descomunal, que ao enrolar no corpo de uma pessoa, vai quebrando lentamente todos os ossos, até restar nada mais que uma massa disforme.

Hoje continuo sem medo de cobras, mas tenho um profundo respeito, pois elas são poderosas e o seu lugar preferido é justamente nos jardins das casas de fazenda, principalmente ao redor daquelas plantinhas ornamentais, sonho de qualquer mulher.

Máxima: As plantas matam; o Discovery Channel também.
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