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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um dia em 1984 (by Rogério Rufino)

Muito tempo atrás, fascinado com Memorial de Aires, de Machado de assis, resolvi escrever também o meu próprio memorial que, obviamente se perdeu no limbo da história mas que recentemente eu reencontrei. O texto a seguir  foi extraido do memorial desconhecido e nele podemos observar que não há obra verdadeira: escrevemos influenciados por aqueles que admiramos. O texto tem um ceticismo incorrigível como se isto o fizesse digno de Machado de Assis. Mas depois de reler eu percebi que a influência maior é de Eliot, o maior poeta americano. Não levem o conteúdo muito a sério, foi mais um exercício de palavras, extraindo o melhor das palavras  e tornando o texto atraente aos possíveis leitores. Estive relendo os artigos, eles variam de uma alegria incorrigível a uma tristeza definitiva passando por textos de ironias pontiagudas e sarcasmo incorrigível. Ah, os jovens!.


15 de Maio de 1984 – 22:56
Às vezes irrefletidas ambições nos seduzem, conduzindo-nos invariavelmente a resultados surpreendentes, freqüentemente decepcionantes. Deve ser a terceira tentativa para iniciar este breve relato, reminiscências de um dia fútil, nada especial mas às vezes fracassamos, contudo, obstinados, persistimos e tornamos a fracassar novamente. Mas não desistimos, talvez uma prova de nossa suprema irracionalidade.

Certas perguntas me atordoam por serem especialmente cruéis. É difícil respondê-las; quem , poderia explicar o que é o gênio ou de que vale a vontade se não possuímos o talento? Claro certamente não podemos compreender bem estas questões por sermos desprovidos de uma coisa ou outra. Triste conclusão. 

Mas não basta.Desta forma, mesmo que ambiguamente estaríamos admitindo que conhecemos parte da resposta e que talvez, mesmo difusamente, temos uma vaga idéia do que vem a ser estas duas palavras tão veneradas e ambicionadas. 

A medida que envelhecemos e adquirimos a capacidade, muitas vezes desagradável de comparar, de nos julgar, de avaliarmos o que somos e o que fizemos, os fatos e os acontecimentos descaracterizam-se e já não despertam mais a emoção. Nossas sensações diminuem pois o elemento novo, o elemento surpresa deixa de existir na maioria das vezes. Simplesmente as coisas acontecem e se tomamos conhecimento do fato, ele sequer nos desperta a curiosidade, simplesmente ele nos arrasta numa indiferença como folhas levadas ao vento. Há uma componente fatalista em nossas vidas, ou pelo menos somos fracos o suficiente para que o destino possa nos conduzir cegamente, como se não fosse possível impedir ou alterar nossos caminhos. Os acontecimentos, muito antes de termos nascido, será que já foram todos determinados e nossa atuação é meramente passiva, sem poder algum para modificar o curso destes acontecimentos. É uma hipótese tentadora quando nos sentimos derrotados e já não vemos muito sentido em lutar. Sem dúvida um consolo, para os destituídos de vontade, dos que não encontram mais o sentido da vida e que apenas remam, indiferentes, certos de que nada vale nada, mas, enfim, melhor fazer o esforço. 

O tédio às vezes é mortal, mas estranhamente em outras é estranhamente agradável. Há uma tristeza doce que nos embriaga mas ela é tão rara. Infelizmente, na maioria das vezes o que sentimos é tão somente angustia, que corroi como o câncer, destruindo nossa capacidade intelectual, tornando-nos egoístas mesmo contra nossa vontade. Dificilmente podemos restaurar o que perdemos nestes dias de amargura.Morremos um pouco a cada dia e não podemos reviver. É como se tivéssemos várias vidas e fóssemos descartando-as lentamente ao longo do caminho até que não sobrasse muita coisa. Aí, descobrimos o estrago e tentamos, quando ainda temos motivos, desesperadamente conservá-las. Mas não há muito a fazer. Se as vidas são muitas, elas são, todavia, muito frágeis, e se enfraquecem ainda mais com o tempo até que um certo dia , surpreendidos, vemos a última delas escapar de nossas mãos e não podemos mais renascer. È bom crer, acreditar na eternidade, mas a dúvida as vezes corroi nossa  alma. Como clandestinos em um navio, não sabemos qual o destino que nos espera. 

Por que Lutam os homens entre si? Não podem ganhar a vida, visto já possuírem na. Arriscam apenas a perdê-la. A insensatez humana não tem limites. Se bem que os que lutam geralmente desconhecem as razões e lutam e morrem obedecendo ordens. Não questionam e nem vêem que são peças de um tabuleiro onde homens poderosos jogam com a vida de muitos, partidas de poder, ambição, loucura e desfaçatez. 

Uma hora se passou, e não mais voltará. É possível que o passar do tempo seja unica coisa absoluta, como disse o bom velhinho Einstein. Para ser mais exato, ele disse que a única  coisa absoluta é a velocidade da luz. Na Física talvez, mas para isso nós não importa muito: o tempo é o que conta e ele costuma ser implacável. 

23:50

                                   
                                    

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Primeira Paixão, Capitu e Elephant Gun (by Rogério Rufino)

Quando eu tinha 13 anos, me apaixonei deliciosamente por uma menina um pouco mais velha do que eu. Foi minha primeira paixão e pensei que seria eterna mas, durou apenas alguns meses e logo eu me apaixonei por uma outra e mais uma vez achei que aquela paixão seria a definitiva e duraria por toda a eternidade...mas cedo percebi que ela era tão eventual quanto uma folha de outono.

Da primeira, não guardo muitas lembranças, mas sei que ela tinha belas pernas, cabelos lisos curtos pretos, um sorriso lindo de menina e um olhar vago e fugidio como se escondesse alguma coisa muito vergonhosa para ser divulgada. Claro, este misterioso olhar impulsionou minha súbita paixão mas, mesmo os mistérios mais recônditos, mais cedo ou mais tarde são esclarecidos e, muitas vezes, descobrimos um tanto surpresos e decepcionados, que aquele olhar misterioso que tanto nos seduzia, escondia nada mais que um grande vazio, a alta ausência que parece preencher um pouco da alma de cada pessoa, às vezes, completamente.

Interessante que, vim a descobrir, lidando com a terra, que a natureza não admite o vazio: não existe terra nua. Se eliminarmos a vegetação de uma área, não há nada que impeça a terra de germinar uma infinidade de plantas, incluindo algumas que não existiam naquela área. Não, o vazio parece ser uma condição terrível e absoluta  da existência humana apenas. Mas esta é outra história...

Minha primeira paixão era 2 ou 3 anos mais velha que eu mas eu que ensaiava os primeiros passos de um futuro explorador de emoções milimétricas presentes em cada ser humano, ia aos poucos visualizando seus mistérios (defeitos?) que ela deixava transparecer em seu olhar, no sorriso ou nos pequenos gestos. Mas, amigo leitor, eu adorava desvendar os supostos defeitos dela, pois era extremamente sensual minha recém adquirida atividade de explorador aventureiro das emoções humanas. Infelizmente, como eu disse, todo mistério tem prazo de validade e logo a sensualidade vai se desfazendo, como num retrato de Dorian Grey.

Na mesma época, comecei a ler Dom Casmurro de Machado de Assis e fiquei deslumbrado. Há ali uma menina mulher extremamente sedutora (Capitu) e Machado primou pela sensualidade oblíqua e dissimulada, como os olhos de Capitu. Machado lida com os mais diversos temas em Dom Casmurro como: a sedução, o desencanto, o ciúme incontido, a traição em sua diversas formas, a dúvida eterna, o remorso, a desesperança e o pior de tudo, a certeza de que nada vale nada mas melhor fazer o esforço. Acredito que todas mazelas humanas estão ali e curiosamente se ele mencionou virtudes, não me lembro. Definitivamente Machado era um "desperado", um pessimista, como ele mesmo diz: “ Não tive filhos, não transmiti ao mundo o legado de nossa miséria”. Mas a despeito do caráter melancólico do livro ele é insuperável. Um clássico e como todos clássicos ele possui a juventude eterna.

Vejo raramente televisão, mas certa vez, de passagem pela sala, fui atraído por uma musica, alguns segundos apenas, nada mais. Era uma banda desconhecida para mim, chamada Beirut, performing uma música (Elephant Gun) que foi usada pela globo em sua série Capitu. Talvez uma das mais belas músicas populares que já ouvi e imediatamente me lembrei de George Orwel em 1984: “ Como é poderosa a música popular” disse um personagem do livro ironizando as músicas produzidas pelas music machines do livro para as pessoas simples do livro. O livro 1984 trouxe ao mundo o Big Brother, que diferentemente do que muitos pensam, não é um programa de televisão, mas sim a personificação da vigilância totalitária e onipresente do estado sobre todos cidadãos, sistematizado em aparelhos de TV com a figura do Grande Irmão, observando permanentemente o que os habitantes do país em que se passa a história do livro faziam ou falavam.

Eu visualizava todas as cenas memoráveis de Capitu e Bentinho em minha imaginação e lógico me deleitava misturando Capitu com minha primeira paixão. E quando acontece algo assim, quando inadvertidamente misturamos realidade e ficção criamos sem querer um mundo irreal algo muito próximo dos sonhos. Pode-se dizer que sonhamos acordados.

Capitu passou na TV há uns 2 anos mas, só esta semana assisti a série e logo nas primeiras cenas recuperei parte de minhas memórias perdidas “na argila do sono”. O diretor da série, Luis Fernando Carvalho, que não tenho a menor idéia de quem seja, é um ser iluminado e com um sensibilidade de um artista. Ele conseguiu, apesar do choro e ranger de dentes da maioria dos críticos , pelo que pesquisei no Google, traduzir em imagens o universo de Dom Casmuro numa fidedignidade impressionante reunindo diversas formas de arte para atender toda a dimensão dos sonhos de sedução machadiano e sua melancólica decepção com a humanidade. Pode-se dizer que ele reinventou Machado através da Ópera, Cinema Mudo, Música ( do rock ao clássico). Toda ação acontece em um espaço único sem paredes. Como num teatro, os cenários continuamente mudam. O quintal e o muro que separa as casas de Bentinho e Capitu foram desenhados no chão, em giz e é ali que acontece uma das muitas cenas sensuais entre Bentinho e a Capitu menina sempre embaladas ao som de elephant gun ou alguma outra musica que se encaixa perfeitamente. Admito que não é uma obra de apelo popular, pois hoje em dia tudo tem que ser direto, so sturdy, so straight, e o diretor muitas vezes trata as imagens como uma gravura impressionista. Suprema heresia. Os atores, principalmente o Bentinho adulto, estão perfeitos. Capitu menina é muito sensual embora a Capitu adulta não tenha sensualidade alguma e chega a comprometer a obra mas, felizmente o diretor pouco a utilizou.

A cena altamente sensual do casal de jovens se conhecendo no qual ele mistura motivos litúrgicos, dança espanhola ou alguma coisa parecida e cenários projetados na parede lembrando uma gravura de Monet, é antológica. A música é estupenda. Bentinho é perturbado por sombras (representando seu passado) que me lembrou imediatamente o Drácula de Coppola, nas cenas em que a sombras do Conde se movia pelo Castelo  expressando os deepest darkest secrets do Conde.

Bentinho, um tipo patético, sofre desde a juventude, com ciúmes e para completar a tragédia, acaba por ser traído pela sua mulher com seu melhor amigo e joga a culpa no destino; “Quis o destino...” Mas o infeliz é atormentado pelas traições, não apenas o adultério , mas as pequenas traições, as mentiras, as dúvidas, e a incerteza dos sentimentos de Capitu. E apesar de todos os tormentos, ainda vive de aparências: chega a enviar Capitu e filho para Europa, e uma vez por ano vai até lá, mas não vê o filho nem Capitu, mas mantém as aparências.

Bentinho sofre do mal do século, o imenso vazio que só é preenchido pelas memórias. E no caso dele, pela saudade dos momentos felizes associados a imensa dor da certeza de que não foram verdadeiros. Uma vida perdida na dúvida de que nada fora real, tudo ilusão e que não se podia mais recuperar o tempo perdido
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