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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Um Executivo Aloprado - Série: Os Executivos Cap 21 ( by Rogério Rufino)

Certa vez, estava contando para uma colega minha que, quando eu tinha uns 9 anos fiquei fascinado com a Divina Comédia de Dante, e ela riu muito e disse: 


- Roger, você nunca foi uma pessoa normal mesmo. 

Naquele instante uma dezena de lembranças passaram como uma estrela cadente pela minha mente. 

A primeira lembrança foi de 10 anos antes em Washington, quando eu e mais dois colegas de empresa, que estávamos em treinamentos ali,  fomos visitar nosso presidente, que estava residindo naquela cidade. 

Eu era relativamente novo na empresa, 3 anos e não tinha familiaridade com o presidente, mas conversa estava agradável pois,  ele é uma pessoa acessível e inteligente e comecei a fazer uma série de perguntas a ele, que me intrigavam. Mas a medida que eu ia formulando as questões para satisfazer minha curiosidade, fui percebendo mudanças singulares em meu colegas. Um deles, nissei, começou a ficar com os dois olhos curiosamente esbugalhados e  por fim, pareceu assumir uma estranha posição de ninja saltitante em fuga alucinada pela janela do oitavo andar. Julguei que era mais uma destas exentricidades de nossos amigos Jaspions e achei que logo o ninja aranha retornaria a sala. 

O Boss continuava tranquilamente me respondendo, enquanto alisava carinhosamente sua raquete de tênis com uma mão. A outra mão, no entanto, ele esmagava lentamente uma bola de Tênis reduzindo-a ao tamanho de uma bolinha de gude,  revelando todo o poder daquelas mãos poderosas. 

Meu outro colega, um tanto roliço e bonachão, subitamente começou a deslizar-se como uma maria mole pelo sofá. Parecia mais uma daquelas criaturas tipo Invasores de Corpos dos filmes de ficção científica. Ele tinha uma expressão curiosa, a boca entreaberta e os olhos revirados como se estivesse recebendo alguma entidade obscura  em algum terreiro e candomblé bahiano. Em ninutos ele já tocava o chão do apartamento, e veio espalhando fantasmagoricamente em minha direção,  transfigurado de  tapete de pele de urso polar. E ficou ali estatelado, braços abertos em cruz,  com os olhinhos de garoupa morta a contemplar seu amado presidente que o retribuia com um olhar de reprovação. Naquele momento tive um destes insights comandados pelo instinto de sobrevivência, e   levantei num salto. Agarrei o  ninja ainda pendurado como um morcego na janela do apartamento do Boss e sai arrastando ele e o velho urso escada abaixo, ao mesmo tempo que despedia do presidente e pedia desculpas pelo comportamento incomum de meus companheiros. Descemos a escada em disparada como que fugindo de uma fera perigosa. O Ninja, como em Matrix saltitava pelas paredes desafiando a gravidade, como um dragão da maldade contra o santo guerreiro. Meu amigo urso, no entanto, ia deslizando apopleticamente degrau por degrau, como uma bola de basquete que desce a escadaria da penha. 

Os dois só retornaram a si na porta do prédio do Boss, mas tudo não durou mais que um minuto. Então eles  olharam para mim e depois um para o outro e então viram o Boss, que nos olhava misteriosamente da sacada do seu apartamento, com uma raquetinha que me pareceu de ping pong e os olhos que me pareceriam em cuspir labaredas de fogo. Meus companheiros pareceram fulminados por um raio.  Os cabelos eriçaram e eles saíram em correria, gritando e agitando os braços pelas ruas de Washington como duas gazelas saltitantes e só fui vê-los uns dois dias depois. 

Outra lembrança que me ocorreu foi  de quando eu retornei  de minha estadia de 2 anos nos USA. Logo nos primeiros dias, eu redigi  um documento de uma folha que dizia o seguinte: A Modest Proposal ( Vender 100 mil unidades do serviço X em 1 ano). Este tal serviço X, a companhia havia vendido apenas 13 mil em 20 anos. 

Apresentei o  documento para o board numa stand-up meeting.  Quando terminei, olhei para o petrificado board. Meu CEO parecia que estava tendo uma visão de um outro mundo e lançava um olhar triste para o que parecia ser a espaçonave que o traria de volta,  mais exatamente o frigobar da sala. 

Nisto o diretor de tecnologia indagou quais as consistências de meus dados quanto ao mercado, no que eu respondi. 

- Nenhuma, eles se baseiam em simples feeling, fruto de meus anos de experência em Telecom. 

Nisto se ouvem  os primeiros versos de Feelings . Nosso diretor de Marketing, se apodera de um bonsai que utiliza como se fosse um microfone e começa a cantarolar: 

Feelings, nothing more than feelings, 
trying to forget my feelings of love. 
Teardrops rolling down on my face, 
trying to forget my feelings of love. 

A medida que ele canta, ele vai se transformando num pop star. Abre os braços e se esparrama pela sala soltando a voz: 

Feelings, wo-o-o feelings, 
wo-o-o, feel you again in my arms. 

Alguns membros do board fazem o sinal da cruz, outros olham como se presenciassem o apocalipse e as mulheres choram copiosamente. O CEO que até então permanecia paralisado como uma estátua de cera, recebe uma cotovelada de seu assessor de alerta real e imediato e   dá um pulinho e dispara: Isto é telefone? 

- Ki fofo, dizem as mulheres.

E quem chora copiosamente desta vez são os homens, incluindo o Diretor de Marketing. 

Como a reunião tinha virado puro non sense, resolvi sair de fininho e ir trabalhar. Mas antes de deixar o recinto, perguntei para o CEO:


- Então senhor posso tocar o projeto? 

- Claro meu filho, precisamos  vender mais telefones, vá em frente! 

Bem, em um ano vendemos 120 mil unidades do tal serviço X, mas antes tivemos que mudar algumas realidades tupiniquins. 

A primeira delas, era que, para que pudéssemos vender tamanha quantidade do serviço X, teríamos que baratear o aparelho que possibilitava o tal serviço, e para isto convocamos para uma reunião, todos os fabricantes do aparelho no Brasil 

Na época o aparelho era vendido, digamos, a R$ 100 no mercado e nós precisávamos de vendê-lo a R$ 20. Fui direto , expliquei os objetivos do projeto e disparei uma proposta indecorosa aos bravos indústriais tupiniquins. 

- Preciso que nos vendam o produto a R$ 15, alguém se habilita? 

- Isto é impossível, responderam em uníssono.

- Os kongs nos vendem a este preço, se não aceitarem compramos deles, mas preferimos comprar no Brasil, disse eu. 

- Não tem a menor possibilidade, nossos custos são altos. Bla bla bla

- Bem, se não podem produzir competitivamente, transfiram sua fábricas para Hong Kong. Terceirizem. 

- O senhor está tentando mudar o jeito de fazer negócios no Brasil. Isto não é muito bom. 

Bem, percebi ai uma ameaça velada e encerrei a reunião dizendo:

- Vocês tem uma semana para pensar. Obrigado. 

Na saída, um dos industriais tupiniquins me fez um sinal para seguí-lo discretamente. Fomos até uma sala e ele me disse: 

- Eu topo, vou terceirizar com os Kongs. 

Bem, a verdade é que no final, ele não terceirizou, conseguiu não sei de que forma baixar os custos Brasil e ganhou um belo contrato. Isto despertou o interesse de uma empresa americana que comprou a indústria do sábio industrial brasileiro por um belo preço. As demais, provavelmente não existem mais.

To be continued.

3 comentários:

  1. kkkkkkkk não acharia tanta graça se fosse ficção........como não eh, imagino a cena kkkkkkk
    O espaço aéreo perde longe... para o que não é trabalho claro!
    Não chega a ser surreal nem tão pouco a nonsense, mas é divertidíssimo!
    Sabe: Marquês de Maricá disse: Os mais arrojados em falar são ordinariamente os menos profundos em saber. Acho que é por aí mesmo, não gosta, nao fala, mas quando abre a boca ou pega no teclado, eu acho fantástico!


    To be continued means vai ter continuação, certo? Então CONTINUE!!!!!!!!!!

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  2. Sim Edith, ainda tenho várias histórias para contar. Thanks. As his´torias são verdadeiras as reações exageradas mas nem tanto.

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  3. Rogério,

    Gostaria de saber quais foram as perguntas feitas ao presidente que causaram tanto espanto?

    Karen A.

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