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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Instintos Indomáveis - Alegrias e Tristezas (by Rogerio Rufino)

Nunca me interessei muito por cachorros, até o dia que minha esposa trouxe para a casa da fazenda um filhote de 2 meses, uma cadela vira-latas. Isto foi em 2005 se não me engano e claro, uns meses depois tanto eu como minha esposa desenvolvemos um tipo de amor que eu desconhecia, por aquele animal, que se chama Lana. Logo depois, minha filha Marina trouxe uns pinschers que foram recebidos com muito carinho para desespero da minhas sogra que odeia cachorros.

Lana se tornou uma cachorra amiga e fiel e eu me desconcertava com sua fidelidade. Um ser humano pode trair outro ser humano com a maior facilidade, mas não peça isto a um cão, ele morreria por você e jamais te trairia. É algo que não podemos entender. Aparentemente os seres humanos, mais complexos e superiores, em sua evolução desenvolvem um sem número de sentimentos e comportamentos que os seres mais simples sequer conhecerão. Mas nem tudo é belo como veremos depois.

Um ano depois, nosso cachorro pinscher chamado Duke, atacou de uma só vez, três cães vira-latas com quatro vezes o seu tamanho. Foi literalmente destroçado mas não perdeu a vida. Estirado na estrada se esvaindo em sangue, não permitiu que minha esposa o tocasse, pois estava tomado pelo terror, que podíamos ver claramente em seus olhinhos. Minha esposa completamente desnorteada, e chorando muito me chamou, e então eu pude tocá-lo, pois nestes momentos, se você mantém o controle, uma comunicação se estabelece e acredito que o pequeno Duke pode compreender que eu iria tentar salvá-lo, que eu era sua esperança, se é que este sentimento ou sensação existe entre os cães.

Os cachorros haviam rasgado seu corpo em vários lugares, de tal forma que se podia ver seus órgãos pulsando em meio ao sangue que escorria jorrava e já escorria entre meus dedos. A vida ia lentamente se deslizando para longe. Não é algo fácil de se ver. Coloquei-o entre meus braços e o levei de volta a casa da fazenda. Não latia mais, havia simplesmente um choro doído, como o de uma criança,  acompanhado de tremores, como se estivesse acordando de um sonho. Uma vez em casa, fiz o que me pareceu ser mais prudente e lentamente fui lavando seus ferimentos. Enquanto isto eu ia  imaginando a dor dilacerante que ele deveria estar sentindo, mas não tinha outra opção. Quanto lutamos para salvar uma vida, não titubeamos mas, acho que sentimos ao mesmo tempo um certo tipo de dor também, a dor pela nossa impotência diante fatos como este. O sofrimento de pessoas e também de animais, é algo que nos dilacera a alma.

Terminado o banho, desinfetei os ferimentos e pedi (ordenei) a minha esposa que o costurasse enquanto eu o segurava, pois mesmo ferido ele tentaria morde-la, pois não havia como ele entender, por que diabos ainda  iríamos feri-lo outras vezes. Coisas que não se explicam. Certas cenas despertam-nos sentimentos desconhecidos, dolorosos. Em minhas mãos havia um pequenino ser, que não sabíamos se iria sobreviver ou não, num choro profundo e assustado, os olhos como que pedindo socorro para que eu o salvasse de todo aquele pesadelo e eu nada podia fazer. Aquilo só reforçava minha certeza de  ser limitado no tempo e no espaço, mas enfim, era melhor fazer o esforço, pois quando há dúvida, ainda há esperança.

Mas ele sobreviveu após traumáticos dias (meses) de convalescência e dos cuidados de uma ótima mãe, minha esposa.

Mas havia outro pinscher, o Bob, um cachorro diferente, amigo, mas distante. Não tinha o apego dos demais nem tampouco seus medos, que faziam com que eles, ao menor barulho, buscassem proteção junto a nós. Bob não, sempre distante, carinhoso mas errante. Vivia se deslocando pelas fazendas da região e um dia, mesmo com uma patinha imobilizada, pois a havia quebrado num salto da varanda da casa, saiu para uma das suas incursões pelos vizinhos e nunca mais voltou. Por dias minha esposa espalhou cartazes na esperança de localizá-lo. Um certo dia, um conhecido nos disse que havia visto um cachorro, idêntico, numa usina de cana de açúcar da região. Fui como uma criança, cheio de esperanças de encontrá-lo com vida e que tudo voltasse ao normal. Mas nem sempre se pode trazer algo de volta. Por alguns minutos pensei, mas que coisa mais esquisita, estou carregando o sentimento de reencontrar uma pessoa amada mas depois compreendi que o ser humano é capaz de amar não só seus semelhantes mas também outros seres da natureza do qual ele faz parte e que, cada vez mais me convenço, faz parte de um todo, que pouco a pouco  estamos destruindo por força ou submissão. Na verdade iniciamos há muito o processo  de nossa própria perdição e certamente existe um ponto certo, do qual não poderemos mais retornar.

Certa vez uma novilha de uns 300 kg invadiu os jardins da casa e foi caminhar exatamente em cima da lona grossa que cobria a piscina e que se rompeu aprisionando a novilha em baixo d’água. Os momentos de terror do desespero do animal ativou alguma coisa no pequeno pinscher Duke, que buscou ajuda de sua salvadora, minha esposa, que naquele momento dormia tranquilamente. Cachorros não falam, mas se comunicam através de latidos um tanto diferenciados e dos movimentos, para frente e para trás como que querendo nos dizer para acompanhá-los, pois a coisa é séria. Minha esposa, não teve dúvidas, seguiu o Duke, que disparou em direção a piscina e chegando lá, ela pode compreender toda extensão do problema. Não havia muito o que ela podia fazer pois não se pode tirar um animal de 300 Kg de dentro d’água sem ajuda de um trator. Mas felizmente a piscina possui escada em alvenaria que desliza suavemente dentro d’água e a novilha pode encontrar este caminho e saiu sacolejando o couro para se livrar da água que encharcou o pobre Duke, o seu salvador e que ela nem tomou conhecimento. Duke permaneceu alguns segundos olhando para ela atônito como um.... um cachorro molhado.

Mas nem tudo é memorável, nem tudo é grandioso. O velho bardo já dizia que “Somos para os Deuses como insetos para meninos vagabundos: eles nos matam por divertimento.” Aprendi que assim é a vida para um cão. Eles matam outros animais por diversão, pelo simples prazer de matar, atendendo seus instintos mais primitivos. Começaram eliminando os lagartos que circundavam a casa. A cena deles tocaiando os pobres lagartos são inacreditáveis. Nada é capaz de distraí-los ou fazerem com que mudem de idéia. Nem comida, nada. São completamente hipnotizados por suas presas e só desistem depois de eliminá-las. E tão logo a vida cesse, eles abandonam suas presas, como se elas  fossem um objeto qualquer, uma simples pedra. Não há ódio,  mas é possível identificar um perverso prazer no instinto de matar, afinal a natureza usa o prazer para garantir que os instintos (lei da vida) serão cumpridos.

Salvei alguns pobres lagartos da sede justiceira dos meus cães e pude compreender, pela respiração deles, todo o terror que estavam sendo submetidos. Um lagarto não tem expressão, mas podemos ver o coração prestes a explodir. O horror, o horror .

E dias atrás vi uma cena chocante, o nosso justiceiro e sofrido Duke, devorando com prazer, dois filhotes de rolinhas fogo-apagou que haviam se lançado em sua primeira e última tentativa de vôo. Na área da casa, pássaros de todas as matizes, constroem seus ninhos e, infelizmente agora, o justiceiro Duke, conheceu seu prazer desconhecido, o vermelho e quente gosto de sangue. Um prazer que é inerente a vida dos cães, animais que domesticamos há milhares de anos, mas que permanecem com os mesmos instintos selvagens. Tentamos por anos evitar que eles despertassem este prazer pelo sangue, pela morte, pela carne crua, mas como aprendi com Michael Crichton, "Life always find a way", a natureza sempre encontra um jeitinho para sobreviver. Não se pode trazer nada de volta, não há mais nada que possamos fazer para que o velho e bom Duke esqueça daquele gosto. Só vigiar, pelo jeito.

Certa vez minha filha ganhou uma Border Collie, que chamamos carinhosamente de Chloe. Um cachorra inteligentíssima, raça muito usada no pastoreio de animais. No começo foi ótimo, uma cachorra excepcional, que quase podia entender o que queríamos. Toda expressão dela estava nos olhos e eles diziam muito. Mas o que não sabíamos era, que ela pertencia a uma raça de caçadores por excelência e não havia condicionamentos capazes de evitar que seus instintos aflorascem. Ela atacava simplesmente tudo que se locomovia. Mas não queria matar simplesmente, o seu prazer era a tocaia. Ela pegava minhas pobres bezerras desmamadas, de uns 120 Kg cada uma, mas de 3 meses apenas, e as conduzia para onde ela queria e as mantinha confinadas numa pequena área delimitada por linhas imaginárias que ela estabelecia e qualquer bezerra que ousasse ultrapassar aquelas linhas, eram castigas sem piedade. Ela mantinha as bezerras ali por horas, sem água e sem comida. A tocaia era o seu prazer. Parece que as raças mais primitivas de cães tem o prazer na morte de suas presas. As raças mais desenvolvidas têm mais mais prazer na elaboração das estratégias que conduzem a captura de suas presas. 

Tivemos que doá-la, infelizmente, para resguardar a integridade das bezerras e só o fizemos quando tivemos a certeza que ela seria bem tratada, como era aqui na fazenda. Foi uma perda. Não tivemos ainda a coragem de voltar a vê-la.