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domingo, 8 de agosto de 2010

O Amor Não Tem Dimensões (by Rogerio Rufino)

Nunca gostei muito do escritor Nelson Rodrigues. Li um ou dois livros seus, e francamente, não me lembro de nenhum deles. Ou seja, não eram clássicos, pois os clássicos são eternos, jamais os esquecemos, e às vezes relemos várias vezes . Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Joseph Conrad, Eliot, Drummond, Remarque e tantos outros, já reli uma ou mais vezes.

Mas uma frase do Nelson Rodrigues, nunca me saiu da memória:

"Todo amor é eterno. E, se acaba, não era amor."

Parece radical, mas é profundo e verdadeiro. Assim, como não existem meias verdades, não existe amor quando ele não é total. Claro, isto é perfeitamente aceitável por todos quando se trata de amor aos filhos, mas quando o assunto é amor entre um casal, a maioria das pessoas, imagino, deve achar que este era mais uma dos exageros de Nelson Rodrigues. Principalmente, porque hoje, a moda, principalmente entre as celebridades é estar sempre à procura de um novo amor. E quando falam isto, usam o mesmo tom ou expressão de quando dizem que estão à procura de um novo automóvel, uma casa ou outro objeto de desejo do mundo atual. Ou seja, parece que o amor se tornou um bem móvel, um prêmio a ser conquistado.
 
Vivemos na temporada de caça ao amor. E assim como os automóveis, que são substituídos em intervalos cada vez menores por outros novos, os amores também estão sendo substituídos, talvez com freqüência semelhante. Mas não sou especialista em estatísticas de amor.

Na verdade, na maioria dos relacionamentos não existe amor. Eles acontecem, motivados por razões diversas, mas definitivamente não é amor. Amor é algo que transcende, algo que requer cumplicidade e sinceridade absolutas. Estes são seus pilares. A paixão é importante, um dos prazeres da vida, mas não tem muita relação com o amor. Pelo contrário, pode até mesmo inviabilizar totalmente o amor. E isto,porque a paixão é exigente, ela demanda atenção, gestos, carinhos especiais, que quando não plenamente atendidos, se transformam em frustrações e finalmente em amargura, arrependimento e separação. E o sentimento de perda em alguns casos pode ser mais doloroso que a própria morte.

O amor chega suavemente, sem alardes, sem avisos, e vai lentamente preenchendo os espaços vazios em nossos corações e quando percebemos, não podemos mais nos libertar. Às vezes não queremos, mas ele é mais forte que nós. Alcança a gente e não há como fugir.

Fitzgerald já dizia que:
“Os guardas mais fortes são colocados ao portão que a nada conduz. E isto talvez pelo fato de ser o vazio uma coisa muito vergonhosa para ser divulgada.”

Nascemos assim, carregamos este misterioso vazio que nos faz buscar por uma vida a dois. Talvez seja apenas o instinto de sobrevivência e a força que nos move para a perpetuação da raça humana. Mas, como inúmeras pessoas escolhem ou aceitam a vida solitária, acredito que este vazio na alma, é que nos torna o que somos, humanos, os únicos seres que conseguem uma enorme variedade de sentimentos que chegam mesmo a serem mais fortes até mesmo que a própria vida.

Há poucos dias eu assisti a um vídeo memorável no YouTube. Uma mãe búfala tem seu filho capturado por um bando de leões. Enquanto eles tentam dominar o filhote, ela vai em busca dos outros búfalos adultos e retorna para salvar sua cria. Quando o bando se aproxima dos leões que continuam a segurar o pequeno filhote, podemos perceber o contrataponto entre o instinto de sobrevivência da mãe e o amor pelo filhote. Ela avança em direção aos leões e recua. Faz isto algumas vezes até que, finalmente, o amor fala mais alto e ela ataca e vai expulsando um a um os leões e consegue libertar o filhote já bem machucado.

O ser humano não titubearia, o amor é mais forte que a própria vida. Isto é a nossa diferença. Somos menos instintivos, mais sensitivos, e talvez por sermos tão jovens ainda, incompletos e cheios de mazelas.
 
Em algumas pessoas, esta sensibilidade em uma alma deformada leva a uma crueldade sem limites, o que as torna muito piores que alguns animais, e o resultado disto é a violência sem limites que o mundo experimenta desde as mais antigas eras, o que levou Churchill a dizer que a história da humanidade é a história da guerra. Mas esta é outra história.

Algumas mentes perturbadas dizem que o ódio é o sentimento mais próximo do amor que existe. Mas a verdade é que, amor não vira ódio, pois se isto acontece, também não era amor. No entanto, certamente a paixão pode se desencadear em ódio profundo.

O amor é generoso, jamais é vingativo. E quando somos feridos, o amor nos faz perdoar e nos sentimos algo próximo à eternidade. É o mais próximo de Deus que podemos chegar. O perdão sem limites.

Mas o amor não possui dimensões. Freqüentemente vejo tratamentos diferenciados de pais e avós por determinados filhos ou netos. E se isto acontece, amigo leitor, com certeza não existe amor. O amor pelos filhos é pleno e exatamente igual. Sempre vai ter um filho ou filha, com afinidades maiores com o pai ou mãe, mas não importa, o amor é exatamente igual. O mesmo peso, a mesma medida. Felizmente em minha casa parece não existir predileção ou afinidades. Existem no máximo, assuntos afins, nada mais.
 
Os filhos, às vezes requerem atenções diferenciadas, durante algum tempo, devido a alguma razão específica. Mas, nunca o amor muda, ele continua o mesmo, sereno e envolvente, como se todos fossem um.

Portanto, se existem predileções, amor maior para com este ou aquele filho, ou neto, com certeza não existe amor verdadeiro, existe alguma coisa cinzenta, desolada e disforme e que definitivamente não é amor.
 This article is copyright to the author and may not be reproduced without permission.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Sentido da Vida (by Rogerio Rufino)

Curioso é a vida: cada pessoa experimenta sua real dimensão em tempos distintos de sua existência. Eu só fui descobrir o que realmente importa aos 51 anos, pois é preciso admitir, foi só quando me deparei com o meu primeiro problema real, os outros todos foram e hoje tenho plena consciência disto, imaginários.  E tudo estava bem em minha frente: minha família.

E o meu primeiro problema, não foi exatamente um problema comigo, mas com alguém muito mais importante que eu, uma das minhas filhas,  Kelly, que se submeteu a um transplante de medula, com sucesso, aos 26 anos de vida.

A minha vida até então foi uma sucessão anelante de projetos e sonhos que fui orquestrando e desenvolvendo ao longo de minha existência. No início da minha carreira, se resumia basicamente ao mundo Telecom, do qual eu respirava 10, 12 horas por dia. Foi pleno e gratificante, mas um certo dia, estava numa fazenda, em pleno inverno brasileiro, numa tarde fria com um céu completamente azul, e fiquei ali contemplando em silêncio o sol, com seu raios espalhando  sua energia, ou seja, a vida, sobre aquela imensa paisagem desolada a minha frente e compreendi, que país nenhum neste mundo tem a riqueza que o nosso possui, pois me lembrei dos dias gelados que eu já havia experimentado nos  Estados Unidos, com a neve cobrindo de branco todo o horizonte, não permitindo que nada florescesse naquelas condições extremas.

Neste mesmo dia resolvi que iria adquirir umas terras por ali, e de fato o fiz e isto foi em 1997. Naquele mesmo ano mudei com minha família para os Estados Unidos, numa cidadezinha adorável, chamada Rockville, no estado de Maryland, há 15 minutos de Washigton, DC. Voltamos no início de 2000, e eu conciliava meu trabalho em Telecom, com os projetos na fazenda, mas é claro que a fazenda foi me absorvendo mais e mais a cada dia, até que em 2004, por uma série de motivos, já mencionados em artigo anterior neste blog, resolvi a me dedicar apenas à fazenda, algo impensável para a maioria das pessoas e que até hoje não foi totalmente compreendido por minha esposa, pois ela vêm de uma família também de produtores rurais, e já experimentou os dissabores a que estão sujeitos aqueles que  se atrevem neste ramo.

Mas iniciou-se ai o que eu chamo de meu processo de humanização, pois antes vivia e pensava como um executivo, ou seja, era movido apenas a vaidades e ambições, e os meus valores eram os mesmos de qualquer executivo: o importante é produzir resultados, lucro e principalmente se manter em evidência dentro do mercado.

O mundo dos executivos tem certa semelhança com o mundinho das celebridades. A diferença é que no mundo dos executivos a inteligência ainda é recompensada e conta, e no das celebridades a falta de inteligência é condição sine qua non. Mas isto é outra história.

Mas, ali no campo, eu comecei a experimentar algo que eu conhecia pouco, ou seja, a vida, em todo seu esplendor.  A natureza se renova, dia após dia, e você vê a vida nascer, renascer, crescer e se multiplicar. Os detalhes vão se acumulando  a cada momento, a cada lugar e  há sempre  algo inusitado, algo diferenciado. Poucas coisas mais gratificantes do que lançar  sementes na terra, e vê-las germinarem,  crescerem e se transformarem num campo vigoroso e cheio de vida. A vida se mostra exuberante. As vezes caminhando nas pastagens, ou nas matas,  subitamente nos deparamos com um animal ainda não extinto, os tamanduás são os mais comuns. Eles ficam ali, absortos com suas crias presas aos seus corpos, caminhando as vezes por minutos ao nosso lado, com suas garras poderosas, que poderiam nos estraçalhar em segundos, mas não, agem como sequer estivéssemos ali.

À noite, se tivermos sorte, podemos nos deparar com  o belo Lobo Guará,  ou até mesmo uma onça parda, que tive a sorte de ver uma única vez, ou capivaras, ainda caçadas inescrupulosamente e sem piedades por alguns idiotas que ainda insistem nesta prática absurda e desnecessária.

Mas é nos bezerrinhos que podemos realmente perceber a vida em todos seus detalhes. Vê-los crescer e se tornarem adultos, pois o gado têm uma vida muito breve, e um bezerro se torna um animal adulto em apenas 2 anos, nos dando uma noção clara, de todo a dimensão de uma existência. Nós sentimos alegrias e tristezas e assim como eles, nos multiplicamos e morremos.

E assim iniciei meu processo de humanização, mas ainda continuava movido a projetos e sonhos, com pouco tempo para minha família, até que se iniciou o processo do transplante da Kelly propriamente dito e eu fui para Curitiba, pela primeira vez em 6 anos me ausentando por mais de 3 dias da fazenda.

E ali, dia após dia, fui descobrindo, aquilo que estava escondido ou adormecido em alguma parte de mim: a coisa mais importante nesta  vida é nossa família. Toda  razão da vida se concentra em algumas  pessoas específicas: esposa e filhos. E qualquer problema com um deles, torna as outras coisas tão distantes e superficiais que a princípio, custei a entender. Mas depois ficou claro, a qualquer sinal de perigo o amor de pai ou mãe fala mais alto e torna tudo mais secundário.

Cheguei ontem de Curitiba, estou na fazenda e já é madrugada, mas minha  passagem de volta já está marcada. Foi extremamente difícil sair de Curitiba, mas eu tinha que vir, mas saí de lá com o coração partido, foi uma das viagens mais difíceis que já fiz, mas, já marquei minha passagem de volta.

Hoje, minha filha  mais nova que se mudou para o Tocantins, próximo a fronteira do Maranhão e  me ligou com voz embargada, dizendo dos receios da nova jornada em sua, vida num local tão distante. Eu disse algumas coisas a ela que não me lembro bem, mas nestas horas, acho que Alguém coloca certas palavras em nossas bocas, talvez as palavras necessárias. A noite ela me ligou feliz dizendo que o dia tinha sido ótimo.

Mas, já resolvi, nunca gostei muito de avião, mas acho que estou virando o Mr. Flying Away. E de Curitiba vou voar lá pelos rincões do Tocantins para vê-la, pois afinal, não há nada mais importante em nossas vidas, todo o resto, é apenas vaidade, embora necessária.  

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domingo, 11 de julho de 2010

Torrente de Emoções (by Rogerio Rufino)

Estes últimos dias foram os mais sombrios em toda minha vida e ao mesmo tempo, os mais cheios de alegria e esperanças. Cheguei em Curitiba numa tarde fria e cinzenta, dois dias antes da infusão da nova medula em minha filha Kelly. E por uma daquelas incríveis coincidências, que parecem orquestradas, cheguei no momento exato, pois minha esposa acabara de se gripar, e não poderia acompanhar a Kelly nos próximos longos dias que culminavam com o procedimento de introdução da nova medula, a nova vida em minha filha, graças a uma destas pessoas admiráveis, que doam 10 ml de sua medula para salvar vidas.


No dia seguinte fiquei com a Kelly, a tarde quase toda, e acho que foi o dia mais difícil na vida dela. Ela sabia, que no dia seguinte ela receberia sua nova medula óssea, e que tudo poderia dar certo ou não. A angústia da espera para algo imprevisível e desconcertante, uma experiência que eu nunca passei e a maioria de nós nunca passará. Vivemos despreocupadamente, pois nosso futuro é imprevisível, mas naquele momento, acho que em sua cabecinha, ela se sentia como que entrando num vôo cego e desgovernado, sem nenhuma garantia de se chegar ao seu final.


Ela permanecia forte, as vezes chorava, mas sempre forte, a Kelly que aprendi a admirar mais que qualquer pessoa neste mundo, pois sempre conviveu, com tranqüilidade, com o fantasma de um fato, de que sua medula mais cedo ou mais tarde iria parar de funcionar. Não havia como se esquivar ou fugir diante disto, e ela fez aquilo que a maioria de nós talvez não conseguisse, enfrentou e adiou o mais que pode, a falência inevitável da sua medula, levando uma vida praticamente normal, sem choros, reclamações, estudando, se formando e trabalhando desde os 17 anos.


Nos últimos anos, viveu com níveis de hemoglobinas baixíssimos que deixariam a maioria das pessoas de cama, sem forças para caminhar e níveis de neutrófilo abaixo do limite mínimo aceitável, no qual as pessoas têm que se internar para não sucumbirem a infecções. E curiosamente era a que menos gripava na família, outro fato sem muitas explicações a não ser claro, a sua própria força, a firmeza de sua inabalável fé.


Certamente não é uma pessoa comum, faltou-lhe algo, uma medula perfeita, mas foi recompensada com beleza, inteligência, generosidade, caráter e uma vontade de viver sem igual.


Naquela tarde, um dia antes da infusão da nova medula, fui tomado por um daqueles momentos em que a emoção irrompe sem controle e não podemos nos conter. Já a tardezinha, próximo ao final do horário de visitas, ela olha nos meu olhos e diz:


-Pai você vai me deixar?


E chora de maneira tão profundamente triste, mais triste que a propria tristeza, que eu não gostaria que o amigo leitor um dia experimentasse algo semelhante.


Nunca me senti tão impotente, e o máximo que pude fazer foi passar as mãos em sua cabeça e dizer que eu não ia deixá-la nunca. Não podia chorar, eu não tinha este direito, mas aquilo me corroeu totalmente e naquele momento eu sabia, eu podia compreender toda dimensão do meu amor , bem como toda minha fragilidade, minha limitação de ser limitado no tempo e no espaço.


Não pude, finalmente, conter as lágrimas, neste momento ao relembrar de seus olhos, como que pedindo um socorro, naquele instante.


No outro dia, ela estava mais calma, acho que todo o choro do dia anterior lhe deu as forças necessárias. Eu não tive escolhas, só precisava me manter aparentemente calmo e seguro, mas não estava.


Mas tudo correu bem, a medula começou a gotejar lentamente em suas veias as 10:40 da manhã e só foi parar de correr 12 horas depois, e uma nova vida se iniciou. O processo é semelhante a uma transfusão de sangue. E todos foram se acalmando.



Umas três horas depois, alguns sustos. Primeiro sangue, mas que felizmente não era na urina, mas sim devido a um corrimento natural provocado por um inicio de menstruação, mas tinha que acontecer exatamente naquela hora?


Logo depois, um início de dor de cabeça e aumento gradativo da pressão, até que ela, já chorando, me diz :


- Pai a dor está muito forte...


Chamei as enfermeiras e elas disseram que a médica já vinha, todos eles em emergências, algo que não queremos mas temos que entender. Mas ela chorava e no momento que ela me disse sentir uma pressão no peito, o máximo que consegui foi dizer para a enfermeira:


- Moça traga uma médica já ou ela vai enfartar em meus braços.

Felizmente a médica veio na hora, e com toda calma disse, que a pressão não era preocupante, e era um acontecimento absolutamente normal durante uma infusão.Mas aquela longa jornada noite adentro ainda deu nos mais alguns sustos, mas felizmente, todos eles, apenas relacioados com a pressão arterial e dor de cabeça.

Foram os momentos mais duros que já experimentei, pois o desconhecimento exagera nossos temores e como Miguel de Cervantes disse:

“O medo tem muitos olhos e enxerga coisas nos subterrâneos.”

Hoje passados 4 dias depois da nova medula, Kelly está ótima, sem quaisquer sintomas, graças a sua força indescritível e aquele que anda sempre ao nosso lado. Isto aliado a excelência do Hospital das Clínicas de Curitiba, onde cada paciente possui sua enfermeira, que visitam seus paciente com pontualidade britânica e atenção especial, nos dando uma tranquilidade e firmeza para o futuro.
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