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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Anjo Vingador

Ao abrir meu Facebook hoje meus olhos se detiveram num post de uma amiga:  Homem chora morte de égua atropelada em beira de estrada no interior de São Paulo. Nele havia uma foto, triste, do homem chorando abraçado ao corpo já sem vida do animal, que ele conhecia desde os 15 anos. Talvez para a maioria de vocês isto pareça sem sentido e mesmo surpreendente, mas eu já experimentei esta dor e posso lhes assegurar, fujam dela, pois ela é como os lugares gelados e úmidos, nos quais o frio parece  penetrar até nas nossas almas.

Certa vez, quando já havia me mudado para a fazenda, uma vaca dali adoeceu e não houve o que se pudesse fazer para salvá-la. Para o leitor entender, mesmo entre os animais existem aqueles que são extremamente dóceis e pelos quais desenvolvemos uma afeição especial, talvez pelo fato de vermos neles um esboço de algo genuinamente humano, que são os sentimentos.  E eu a vi definhar lentamente e o pior,  eu podia ver toda a extensão de sua dor e da sua luta desesperada pela vida, pois os animais, diferentemente dos seres humanos, não desistem jamais, se agarrando a toda e qualquer esperança, por menor que seja. Instinto ou pureza de sentimentos?

Mas chegou o momento, não havia mais nada a fazer, era preciso tirar-lhe vida para evitar um sofrimento maior.  E é justamente a contemplação da dor sem esperanças que  nos dá a força necessária pela  solução mais radical e sem volta: a morte. Peguei a injeção e preparei a solução que  ia lhe proporcionar um fim rápido e sem dores.

Mas naquele instante, fui surpreendido,  ela me olhou direto nos olhos, um olhar triste desamparado,  como se soubesse do que estava prestes a suceder. Aquele olhar jamais esquecerei pois ele vasculhava bem no fundo de minha alma, a procura de uma explicação talvez. Eu podia compreender o seu pavor e ouvir seus gritos no silêncio, o seu choro quase infantil, a  sua súplica para que eu a salvasse, mas eu não podia. Meu papel alí  era outro: eu era seu anjo vingador.  

E então  eu introduzi a agulha  em sua veia  e  o liquido incolor e aparentemente inofensivo deslizou suavemente em sua corrente sanguínea. Por um segundo eu quis parar e salvá-la, mas a lucidez retornou rapidamente me lembrando que não havia mais esperanças. E  como um carrasco, eu pude contemplar os leves  tremores se iniciarem e se espalharem por todo o corpo expulsando a vida. A morte avançava lentamente de dentro para fora e logo já dominava os olhos que ainda, num ultimo ato de cruel coerência,  perscrutavam os meus. Mas agora não havia mais súplicas no ar, mas a desolada e cinzenta certeza da morte e sua desesperança. Eu tentei me esquivar, mas não pude,  era mais forte que eu e subitamente não pude mais conter a emoção  e as lágrimas irromperam incontroláveis e um choro doído e silencioso  se apossou de mim. Foi uma das poucas vezes que chorei, mas durou o que me pareceu uma eternidade. Talvez por isto eu compreenda tão bem o que sentiu o homem da reportagem.

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