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domingo, 12 de setembro de 2010

Vivendo Perigosamente (Parte II- Acidente de Carro) (by Rogerio Rufino)

Nunca gostei muito de carros. Não sei dizer de qual marca e muito menos qual modelo são. Acho a maioria igual, em geral de muito mau gosto tirando um ou outro. Mas curiosamente gosto de jipes, talvez porque em minha infância via aqueles filminhos de guerra que tinha uns jipinhos americanos que enfrentavam os panzers alemães e, acreditem, os destruíam. Nós, crianças, vibrávamos como o poderio americano e seus jipinhos.

Alguns anos depois, não pude evitar certa melancolia, quando eu descobri que o exército alemão normalmente fazia picadinho dos exércitos americanos e ingleses e que só encontraram um inimigo a altura no exército soviético, que após resistir bravamente por 900 dias de invasão alemã, reuniu suas forças e expulsou o exército alemão da Rússia, empurrando-o  de volta à Alemanha e se tornando o primeiro exercito aliado a conquistar Berlin. E só parou por aí porque os americanos, que já estavam com a bomba atômica para ser testada, pediram "gentilmente" para o ditador Stalin estacionar seu exército vermelho em Berlin. 

Do contrário, o sanguinário Stalin (responsável pela morte de 20 milhões de russos) só teira parado em Portugal e Inglaterra e o mundo seria bem diferente, provavelmente bem pior, pois não existe nada pior que governo socialista ou comunista de carteirinha. O sonho de nossa futura presidenta. 

Mas assim que entrei definitivamente para o mundo rural, lá pelos idos de 2004, comprei o meu jipão com motor potente (de trator) a diesel. Pesava umas 2 toneladas, e fazia mais barulho que um caminhão Scania turbinado, mas eu o dirigia feliz e...empoeirado, muito empoeirado. Descobri que os jipes sugam o ar em sua janela traseira e  que toda aquela poeira que você vê pelo retrovisor de seu carro quando anda numa estrada de terra, é sugada para a cabine de um jipe, uma beleza. 

Definitivamente aquele carro não combinava muito com um ex-executivo. Lembro-me que alguns companheiros meus atingiram o máximo na escala tupiniquim de executivos fashion: adquiriram o seu primeiro BMW. Naquela época isto impressionava a turba ignara, ou seja, os representantes das classes não executivas e mesmo algum ou outro executivo iniciando na carreira, e que ainda estava a meio caminho, andando numa carroça nacional de luxo.

O sonho do executivo fashion é ter a sua Ferrari, um carrinho que nunca me impressionou, e que a primeira vez que vi foi por acaso: estava saindo de um restaurante em Rockville, Md com minha família, quando um pequeno china estacionou sua poderosa Ferrari bem a nossa frente. Uma das minhas meninas olhou aquela coisinha desconfortável, barulhenta e brilhante e disse: 

- Legal, ele comprou um carro adequado para a idade dele.

Quanto aos BMW perdi o meu respeito depois do seguinte dialogo com o namorado de uma de minhas filhas, que sempre aparecia com um BMW novo:

- Mas você gasta muito dinheiro nesses carros, hein?

- Na verdade nunca comprei um carro, faço um leasing, uso por 2 anos e troco por outro zero, custa apenas 225 dólares mês por BMW. Lá em casa tem 8, dois para cada um. 

Eu que tinha um único Ford Taurus usado e comprado a vista, fiquei mudo e com peninha de mim e mais ainda dos executivos brazucas que pagavam e ainda pagam verdadeiras fortunas  para possuírem suas reluzentes BMWs, graças aos nossos impostos e taxas de juros maiores do mundo. 

Quando comprei meu jipão, os hammer ainda eram famosos, aqueles jipes do exercito americano em Bagdá. Como eu não podia comprar um Hammer, comprei um jipão nacional, tecnologia tupiniquim, sim senhor, que iria fazer com que, mais uma vez, os europeus se curvassem diante do Brasil. Você sabe quando foi a primeira vez? Não me lembro.

Depois, descobri que era verdade: se exportado, todo europeu que o adquirisse, viveria curvado para sempre, para catar alguma peça que se soltasse ou para consertar alguma coisa que quebrasse. É senhores, mais um orgulho da indústria nacional, o jipe CBT que ao lado da Gurgel, disputam o troféu de pior indústria automobilística mundial. Você não se ufana? Tenho certeza que sim.

Mas o jipe, depois de umas 30 consultorias, estudos de case e reengenharia, ficou melhorzinho, como ficam as empresas após as tradicionais mudanças de fim de ano. Ou seja, durou mais um pouquinho.

Foi divertido, costumava descer até as partes mais baixas e acidentadas da fazenda, próximo a represa da companhia Hidrelétrica. Ligava a tração 4x4 e reduzida, e ele entrava em qualquer lugar. Certa vez, fui buscar uma bezerrinha holandesa cuja mãe havia parido num local de difícil acesso. Achei uma aventura histórica, a bezerrinha deitou-se no banco do jipe e veio dormindo. Quando cheguei no curral, meu peão disse:
- O senhor poderia ter me deixado ir a cavalo, o senhor esqueceu-se de trazer a mãe.
- Mas não cabia no jipe.
- Tá bom, mas da próxima vez eu vou a cavalo.

Vendi o jipe, mas confesso que é o único veículo que sinto falta. Sem capotas então, é muito divertido.

Normalmente, sempre dirijo devagar, mas naquela manhã eu estava com pressa. Era sábado e  precisava chegar até uma  cidadezinha a uns 30 km da fazenda, antes do comércio fechar. Não que fosse demasiadamente importante ou necessário, poderia esperar, mas são justamente coisas assim, que nos induzem a uma série de erros e distrações. 

Dizem que a maioria dos acidentes fatais acontece, quando a pessoa pega o carro para comprar alguma coisa num mini shopping qualquer, a poucas quadras de sua casa, e por ser tão perto, ela não coloca o cinto de segurança justamente por achar que naquele percurso tão curto e conhecido, nada pode acontecer.

As estradas, de cascalho, até que estavam boas. E lá ia eu, com minha pick up de 4 meses apenas, dirigindo a uns 70 ou 80 Km por uma estrada estreita, de mão única, coberta de uma vegetação exuberante, pois era verão, tempo das chuvas, época em que a natureza se apresenta todo seu esplendor. No som do carro, David Gray entoava uma de suas mais belas canções, Meet me on the Other Side, que nos conduz a uma atmosfera perturbadora, como que se alguma coisa cinzenta, desolada e ruim quisesse entrar. Não sabemos o que é, mas certamente não é deste mundo.

Infelizmente a estradas tem suas sinuosidades, e os capinzais exuberantes em suas margens, não permitem uma visão em toda sua extensão. E assim eu vejo surgir a uns 80 metros a minha frente, a frente escura de uma camionete grande e antiga, ela vinha lentamente como que surgindo do nada, alguma coisa de muito ruim que acabara de entrar no meu mundo, completamente absorto com a música e meus pensamentos. 

Tudo que transcorreu então foi muito rápido, coisa de segundos, mas vou contar como tudo me pareceu, alguma coisa próxima a eternidade.

Nossa primeira reação é frear, o mais forte possível, mas estranhamente nada acontece, a píck up desliza no cascalho aparentemente na mesma velocidade. Neste momento não há sons, embora a musica continuasse tocando normalmente, mas você não ouve, tudo no mais absoluto silêncio, e a camionete que era um ponto cinza no horizonte começa a se avolumar e já podemos ver seus detalhes, sua grade frontal, mas ela não quer parar. O silêncio é total e você começa a distinguir pessoas no interior do outro veiculo e elas parecem petrificadas, como que vindas do além.

Lembro de um filme japonês, um clássico, no qual um senhor que trabalhou uma vida inteira numa empresa recebe sua carta de demissão. Daquele momento em diante o diretor, genial, cortou totalmente o som, e o velho homem começa a caminhar pelas ruas absorto em sua tragédia pessoal, até que sons  ensurdecedores da buzina de um ônibus o desperta e a todos na platéia, e ele finalmente volta a sua realidade nua e crua.

Nos momentos de grandes perigos ou grandes tragédias, parece que nosso cérebro, foca exatamente naquilo que esta prestes a acontecer ou no recém acontecido. Não há sons, cheiros, apenas a visão continua.

Finalmente a camionete pareceu gigantesca bem a minha frente, e antão alguns estilhaços, fumaça e dor, o corpo sem o cinto de segurança, pois o que poderia acontecer numa estrada que passo todos os dias, é atirado para a frente violentamente em direção aos destroços retorcidos e estilhaços de vidro e metal. A cabeça bate no porta sol, e toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido e o corpo volta violentamente para trás, a nuca batendo violentamente na proteção de pescoço e depois não há mais certezas, as vistas escurecem, por milésimos de segundo, 1 segundo, nunca se vai saber.

Digamos que a batida se deu a 50 km/h. Neste caso sofri uma desaceleração 100 vezes superior à da gravidade. Como peso 85 kg, é como se eu fosse esmagado por um peso de 8,5 toneladas. Então, o desfalecimento, embora, eu não tenha percebido, é real, pois minhas células continuaram a viajar na mesma velocidade que a do carro, mesmo após a batida. É como se meu corpo fosse um coletivo carregado de pessoas e ao bater o que acontece: todas elas são arremetidas para frente e vão se amontoando na frente do veículo. Isso acontece muito com os aviões, nos quais até os bancos costumam ser arrancados e juntamente com os corpos dos ocupantes vão destroçando tudo a sua frente,  pois a energia precisa ser dissipada de alguma forma.

Quando recuperamos os sentidos, tudo se passa numa outra dimensão de tempo e espaço, tudo parece estranhamente lento e sem cor, o mundo ficou  cinza e em slow motion. Você vê as pessoas se movimentando, sabe que elas falam ou gritam algo, mas ainda não há sons. 

De repente a dor irrompe de forma absoluta, e vai-se ramificado do pescoço em direção aos braços e costas, onde toda energia cinética se dissipou. Então o cérebro manda o alerta, é preciso fazer algo, e eu me lembro que sempre mantenho um celular dentro do carro para emergências, protegido em baixo do banco. Saio do carro, e me animo um pouco, pois consigo andar, com dificuldades devido a dor insuportável, mas ligo para minha esposa, que me pega e me leva para o hospital. 

Foi uma das viagens mais longas que eu fiz, pois tudo era estranho, a dor e um receio vago de alguma lesão, eram definitivamente perturbadores. Acho que vamos de alguma forma preparando para o  pior, mas tudo isto numa estranha atmosfera de completa solidão, sem memórias, arrependimentos, sentimentos ou desejos. Era como se o tempo tivesse parado a espera de algum acontecimento de alguma coisa que ainda estava por vir.

E no hospital tudo continua mais perturbador ainda, eles olham , fazem exames e levam umas 2 horas para finalmente alguém dizer: felizmente não houve nada, rapaz de sorte.

É como se retornássemos a vida após alguma viagem a algum lugar desconhecido, como acontece às vezes nos pesadelos. Queremos fugir, mas não podemos, tentamos, resistimos, mas não conseguimos nos libertar e finalmente, já quase sem forças, acordamos e sentimos a vida voltar.

No outro dia já estava trabalhando normalmente, apesar do pescoço ter doído ainda por um mês.

Máxima: Usem cinto de segurança e evitem ouvir a canção meet me on the other side no carro.
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3 comentários:

  1. Que bom! Em versos, prosas, sonetos ou simplesmente "juntando as letras" tudo vai se exorcisando, esteriorizando... e diga-se de passagem, muito bem. Meu escritor favorito! Olhe! da próxima vez ouça "Be with my wife" que tudo dará certo!

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  2. Ainda bem que havia vendido o JIPE...Há 50 Km/h sem capota...Provavelmente, "You would have meet HE on the other side" e nós não teríamos a oportunidade de ler esta história. Vc transformou uma cena, infelizmente, comum (pelo menos na cidade, é claro) em uma aula de história, física e arte.
    Que riqueza de detalhes...Viajei por um mundo sem sabor, sem cheiro, sem som, sem luz...
    Ai! Meu pescoço tá doendo!

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  3. Meet me on the other side não me parece uma musica muito adequada para escutar no carro daddy!! So vc mesmo!!!
    Este texto é MUITO adequado para uma pessoa que conheço!! Hoje mesmo vou repassar...

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