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sábado, 11 de setembro de 2010

Vivendo Perigosamente (Parte I) (by Rogerio Rufino)

A maior parte de minha existência transcorreu num ambiente tranquilo, sem grandes preocupações nem grandes tristezas e acho que o mesmo acontece com a maioria das pessoas. Outras experimentam desde as mais tenras idades tragédias espantosas, o que nos faz imaginar como conseguem superá-las e chegamos mesmo a admirar e considerá-las seres superiores. Frequentemente, quando assistíamos casos assim, eu sempre dizia para minha esposa: tem pessoas que são muito maiores que a maioria de nós.

Sucuri                                                 Jararaca


Mas a verdade é que, procuramos fugir destes assuntos, eles não nos fazem bem, são demasiadamente tristes para serem contemplados sem que criemos uma atmosfera opressiva, melancólica, que acaba nos subjugando. Melhor não saber, silenciosamente preferimos esquecer, desejando que nada semelhante aconteça conosco.

Mas quem já leu o grande Os Sertões de Euclides da Cunha, que na opinião do poeta americano, Robert Frost, é maior obra da literatura das Américas, coisa que a maioria dos brazucas (futebol e carnaval) desconhecem, vai se lembrar do seguinte trecho, no qual o autor fala do sertanejo nordestino:

“Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreensível, e não perde um minuto de tréguas. É o batalhador perenemente combalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para um recontro que não vence e em que se não deixa vencer.” (Os Sertões)

Este ano de 2010 experimentei um pouco destas ciladas e surpresas repentinas que as vezes a vida nos premia:

Em janeiro deste ano, estava com minha esposa na fazenda. Era noite, aproximadamente 9 horas e assim que nossas visitas foram embora, minha esposa, decidiu fazer aquilo que as mulheres adoram, molhar as plantinhas, aquelas coisinhas sem graça que elas criam nuns vasinhos, e que até hoje não sei bem para que servem. Alguns dizem que é para criar o famoso mosquito da dengue, eu não sei.

Como toda mulher, ela nunca acerta bem quais interruptores acendem determinada s lâmpadas. Se vocês observarem, uma mulher nunca irá decorar, e para acender uma lâmpada, irá teclar frenéticamente todos interruptores até acertar.

Claro, após apertar alguns interruptores sem sucesso, ela  foi no escuro mesmo, em direção a piscina e ao pisar na área da sauna, a cilada repentina: foi picada por uma cobra do tipo jararaca, muito comum no sudeste do Brasil. E como toda mulher, estava com a tristemente conhecida como a mais famosa invenção nacional: a chinela havaiana. Bem, se é havaiana, é provável que copiamos, mas esta é outra história.

Felizmente, é uma mulher muito inteligente e teve o raciocínio rápido para diagnosticar a leve picada, mas correu o risco de ser picada mais de uma vez, pois mesmo assim avançou e acendeu a luz da área para ver a cobra, e me gritou. Felizmente lá só tem um interruptor.

Quando ouvi seu grito, confesso que gelei, pois nunca vi ninguem ser picado por uma cobra e o primeiro tinha que ser justamente minha esposa?

Descobri depois que muitas pessoas morrem, simplesmente por acharem que se feriram em algum ramo ou espinho e quando a veneno começa sua jornada destruidora, aí já pode ser tarde demais.

A Jararaca é uma cobra do Gênero Bothrops, responsável por 90% dos 20 mil acidentes ofídicos que acontecem todo ano no Brasil. O seu veneno é devastador, causando necrose generalizada nos tecidos e hemorragias. Como o médico disse, ele vai dissolvendo os tecidos literalmente à medida que vai se espalhando a partir do local da picada.

Acendi todas as luzes e corri até minha esposa, e a primeira coisa que vi, foi um gota de sangue em seu calcanhar e bem a sua frente no piso cerâmico branco da área, uma jararaca absurdamente nervosa, dando botes até nas paredes.

Nestes momentos não sabemos muito o que fazer, pois como eu disse no início, aquilo que não desejamos que nunca aconteça, não procuramos nos informar corretamente e eu só lembrava que, não podia usar torniquete nem cortar o local da picada. Só lavar. 

Em segundos a dor já era intensa. Segundo minha esposa, é algo indescritível, pior do cólica renal. Como não tive uma nem outra, não tenho muita noção. 
Mas esquecemos, de algo muito importante, a pessoa ofendida, não deve andar. Deve fazer o mínimo de esforço possível para que o veneno não se propague mais rápido ainda.

Peguei a única coisa que vi ali, o aspirador da piscina e dei uma pancada na cobra, que ficou lá estirada. Um funcionário da fazenda, ouvindo a gritaria de minha esposa, chegou rapidinho, e disse que a cobra ainda estava viva e acabou de matá-la, colocando-a em uma caixa para sua identificação posterior e consequentemente, a escolha correta do soro a ser usado.

A fazenda fica a 30 Km da cidade mais próxima, e nossa primeira intenção era seguir para Uberlândia a 100 Km. O que seria uma besteira imensa. Felizmente minha esposa ligou para nosso sobrinho Noslen, que é assessor direto do prefeito, e quando chegamos ao posto de saude da cidade, ele já estava lá esperando com médico e tudo. E para nossa sorte, o médico de plantão naquele dia, Dr. Aroldo, tinha morado 10 anos no Mato Grosso, onde se tornou um especialista em acidentes ofidicos.

A viagem até a cidade foi muito difícil, pois é uma estrada vicinal, de terra, com muita s pedras, e eu ficava pensando, se for devagar é ruim, se correr, arrisco a estourar um pneu e ai vai ser uma  tragédia. Mas chegamos. São aquelas viagens intermináveis, eu tentando ser o mais lógico possível, minha esposa numa dor horrível, pedindo para ir mais rápido, mas felizmente consegui me controlar e não cometer um erro qualquer.

O médico nos disse que o ideal é aplicar o soro em até 30 minutos. O dela foi aplicado após 1 hora, mas a grande experiência do médico, foi responsável, por não ficar qualquer sequela, em função da ação fulminante do veneno. Nem marca sequer restou. Perfeito, mas mesmo assim, ela teve que ficar 3 dias em um Hospital já em Uberlândia e quase um mês sem conseguir andar direito. Como é determinada, fez a fisioterapia necessária, o que lhe permitiu recuperar 100% dos movimentos do pé.

Até então eu não tinha o menor medo de cobras, talvez graças aqueles malucos do Discovery Channel, que vivem correndo atrás delas sem o menor temor. Sempre andei no pasto despreocupadamente, às vezes a noite, principalmente na beira da represa e mesmo em áreas de brejo. Era como o personagem do Granham Greene em O Americano Tranquilo. Não tinha receio de  nada por simples inocência.

Certa vez capturamos uma sucuri de quase 5 metros, que havia pego um bezerro de  180 kg.  A cobra pesava uns 80 Kg e tinha uma força estraordinária. Nós  salvamos o pobre bezerro, que na verdade era muito mais forte que nós, mas ela havia mordido  em seu pescoço e o estava arrastando para agua e ele não podia fazer muita coisa: só berrar e como berrava o infeliz. 

Toda a ação ficou parecendo coisa de cinema pastelão, a cada instante  alguem levantava voo, atirado ao espaço pela contrações da serpente.  Finalmente sujos e descamisados, conseguimos subjugar a  sucuri pelo cansaço. Obs.: O Ministério da Saúde não Recomenda este tipo de ação.

Outra vez, ouvimos gritos agonizantes de um animal que não identificamos e corremos feito um bando de malucos  nos embrenhando na mata fechada que cerca uma das nascentes da fazenda. Outra sucuri, talvez maior, talvez igual, havia  pego um tamanduá bandeira e conseguimos salvar o bicho. A cobra porém conseguiu se esquivar, pois estávanos em seu habitat , o solo era coberto por uma lâmina dágua de alguns centimetros.

Certa vez, para desespero de uma mulher que trabalha na fazenda, eu encontrei uma jibóia dormindo tranquilamente em uma das árvores em volta de minha casa. Não tive duvidas, como os malucos do Discovery, peguei a bichinha, de quase 2 metros com as mãos, e a levei para uma reserva da fazenda onde a soltei, para que ficasse protegida e voltei feliz como um ecologista realizado. Na verdade a cobra jiboia não é venenosa, mas sua mordida pode causar uma infecção perigosa. Mas ecologista amador é coisa mais patética que há. E outro erro comum, é que cobras são muito parecidas e como não somos especialistas, podemos confundí-las. E se não fosse uma jibóia. Dei sorte.

Ficava fascinado quando me  deparava com uma sucuri dormindo tranquilamente ao lado de uma nascente. Aproximava o máximo que eu podia, sempre lembrando de uma cena que vi, uma naturalista, entrando num igarapé amazônico e saindo da água com uma anaconda de uns 10 metros nas costas. Se uma mulher podia, então uma anaconda era tão perigosa como um ursinho de pelúcia.

Passados uns bons minutos, a sucuri mergulhava nas águas e desaparecia e eu continuava lá esperando que ela voltasse. Não voltava. Por sorte nenhuma me atacou, pois não há muito o que se pode fazer contra a sua força descomunal, que ao enrolar no corpo de uma pessoa, vai quebrando lentamente todos os ossos, até restar nada mais que uma massa disforme.

Hoje continuo sem medo de cobras, mas tenho um profundo respeito, pois elas são poderosas e o seu lugar preferido é justamente nos jardins das casas de fazenda, principalmente ao redor daquelas plantinhas ornamentais, sonho de qualquer mulher.

Máxima: As plantas matam; o Discovery Channel também.
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6 comentários:

  1. Well, não fui só molhar plantas, o objetivo principal era fotografar a lua que estava extraordinária....quanto aos interruptores não precisava colocar 6 (seis) e um unico ponto... e plantas não matam, ornamentam, embelezam, justificam o seu lugar na natureza...assim como as mulheres!

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  2. grande Roger.... obrigado por ter tornado o nosso dia mais rico (e claro mais divertido! rs...) com suas informações. Fico muito feliz que a esposa tenha saído ilesa do incidente, apesar da tensão e do susto que vcs certamente passaram.

    Continue sempre compartilhando conosco suas matérias, é uma forma de nos sentirmos próximos deste quem tanto respeitamos e admiramos!!!
    saudades amigo, um abração

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  3. Bem cobra não é o meu forte, mas valeu a aula, Sinhá Edith sempre vencedora nas lutas da vida!
    Mr.Ruffus, sempre uma deixa prática da vida na fazenda, mas e o milk está garantido?
    Um abração e bom domingo, fica com DEus!
    da caída no esquecimento Irmã Selmurai:)

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  4. Grande bocozao!!!!
    Seu senso de humor e machismo e unico, mas nao adianta disfarçar, nos todos sabemos que voce tambem adora uma plantinha, a unica diferença é que voce nao confunde os interruptores!!!
    Beijos! TE AMO!

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  5. Kellinha meu amor, o que te fez achar que sou machista? Tambem te amo

    Edith meu amor, não lembro de máquina fotografica em sua mão não.

    Caro Beto, thanks again pal, se voce se divertiu, já valeu a pena.

    Cara Selmurai, eu sumi um pouco do msn, pois tenho que reorganizar novamente a fazenda, and it takes time. I´ll be back soon.

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  6. Como diria Kellinha...Ô bocozão, a máquina estava no tripé, não tenho a menor idéia de quem a levou pra dentro...tá ficando velho..........hem! Fala das mulheres e não conta que primeiro vc pegou uma peneira de piscina para matar a cobra hehehehehehehe.....

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