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sábado, 24 de abril de 2010

Capítulo 12 – Era Uma Vez Na América (Parte 2) (Série: De Executivo a Produtor Rural)

Voando Adoidado


Certa vez, já morando na América, recebi uma missão de acompanhar dois executivos coreanos para uma série de visitas a empresas de alta tecnologia no Canadá e Estados Unidos, buscando parcerias estratégicas de negócios ou o que quer que seja isto.


Well, coisa simples pensei: voei de Washington para New York no final da tarde e tive uma reunião rápida com os Koreans. Partimos na manhã seguinte para Quebec, se não me engano, ou Montreal, bem não faz muita diferença, o Canada no inverno é tudo igual: Paisagens brancas, misturadas a tons cinzas claros e escuros. Explico, você quando anda nas ruas ali, vê uma imensidão branca, a neve cobrindo tudo, com o asfalto escuro das avenidas e ruas serpenteando entre aquela paisagem polar.


Caminhões limpa-neve (snowplow), com lâminas acopladas na frente, removem toda a neve para que os carros possam transitar, e aí a fumaça dos automóveis vai tingindo de preto as bordas das ruas e avenidas, deixando tudo com aspecto de sujeira. Para completar, árvores completamente desfolhadas contemplam um céu cinza que parece tocar os tetos dos carros. Além do frio glacial, este é um dos motivos pelos quais os canadenses vivem praticamente nos subterrâneos das cidades.


A reunião foi normal, sem interrupções, com um business lunch, correndo em paralelo. À medida que um ou outro tinham uma pausa, pegavam um cold lamb sandwich e comiam o mais rapidamente possível.


O executivo chefe Coreano era um ator, e possuía lá seus cacoetes: quando ele ia falar, ele cruzava as mãos logo abaixo do queixo e começava suave e pausadamente, sempre assim: Anyway, ...


Anyway é similar ao Veja Bem, utilizado pela maioria dos executivos tupiniquins, quando não sabem uma resposta.


Presidente: - Mas Sr. CEO, por que nossa empresa está no vermelho?


CEO: - Veja bem Sr. Presidente, o dólar subiu e prejudicou nossas vendas (ou o dólar caiu e prejudicou nossas vendas).


É sempre ele, o Dólar, e claro, tem uma porção de outros clichês muito utilizados, mas esta é outra história. A verdade, é que eles servem apenas para escamotear uma má administração. Existem até livrinhos de auto-ajuda para executivos, com os mais requintados clichês para se usar nas reuniões do conselho de administração.


Para que vocês compreendam, universo dos Executivos, é preciso entender que eles possuem poses características, cada qual representando o nível de importância de cada um.


Por exemplo, um executivo iniciante jamais levanta as mãos acima da mesa, no máximo, segura uma canetinha ou apóia uma mão sobre a outra na mesa.


Um executivo mais graduado, como nosso amigo coreano, já cruza as mãos pouco abaixo do rosto.


Um super graduado apóia o queixo na palma da mão e levanta dois dedos, recostados à sua bochecha, na direção de seu olho.


Jamais vocês verão um executivo cruzar os braços como um jogador de futebol numa fotografia de final de campeonato. Isto é coisa de técnico.


Se o cara fica digitando em um notebook o tempo todo, ou ele é secretário, especialista em informática, ou trabalha na qualidade (digitam o tempo todo, pois imagino que tem o que se chama de correntes de idéias- stream of ideas,), coisa que muito surpreendeu o Albert Einstein, em sua visita ao Brasil. Nela, seu host brasileiro, de tempos em tempos, tirava um caderninho do bolso e fazia uma anotação. Einstein perguntou o que era aquilo, e o profícuo host explicou a ele que toda vez que ele tinha uma idéia nova, ele anotava. O host então perguntou ao Einstein se ele não fazia o mesmo. Ele respondeu que não, pois até aquele momento ele tinha tido uma única idéia na sua vida.


Lá pelas 3 da tarde, finda a reunião, corremos para o aeroporto para pegar um vôo das 5 horas. Chegando ao aeroporto, me deparo com uma alfândega (customs). Pensei, mas que diabos estes canadenses querem, nunca vi imigração pedir visto para um cara sair do país. O funcionário me pediu o passaporte e me perguntou o que eu ia fazer nos Estados Unidos. Respondi que ia me encontrar com Mr. Clinton, e que isto não era da conta dele. Claro, o rapaz ficou vermelho, e como não existia ainda o Bin Laden, ele deve ter pensado que eu era Carlos, o Chacal e me conduziu para uma sala, onde só então eu percebi que aquilo era a imigração americana, um posto avançado dentro dos aeroportos canadenses. Tive que usar de toda minha astúcia com a funcionária americana para poder me safar e pegar o vôo a tempo. A funcionária, no final da astúcia, fez a gentileza de mandar o comandante de vôo me aguardar, e naquele dia, fui o responsável, por atrasar um vôo comercial internacional, mais uma façanha deste nobre executivo que vos escreve.


Chegando á porta do avião, lá estava o Mr. Anyway me esperando, desta vez com outra pose, a de Bruce Lee.


À noite estávamos em Detroit, na manhã seguinte, em Los Angeles. Reunião pela manhã, mais poses nossas e de Mr. Anyway. Estávamos ficando especialistas nelas, já tínhamos até coreografias quase ensaiadas. À tarde voamos par Houston para mais poses, quer dizer mais reuniões. À noite chegamos de volta a New York, nos sentindo Master of the Universe, dois países e 5 cidades, coast to coast, em 2 dias.


Retornei a Washington de trem, pois já não agüentava mais ver avião. O trenzinho New York to Washington, até que é legal, não é tão rápido como os europeus e japoneses, leva umas 3 horas, chega a uns 160 km/h e é muito confortável. E o melhor de tudo, não tem nenhum executivo coreano nele.


To Be Continued

Um comentário:

  1. Belo artigo! Aqui foi relatado muito bem o "little word" dos executivos e suas reuniões...
    Tenho uma opinião bem fria e verdadeira sobre o tema "reunião" para mim "reuniões" são feitas para as pessoas que não querem ou não gostam de trabalhar, pois não existe nda mais inútil do que as tais "reuniões", muito se diz e quase nda se resolve...e então o que os executivos "inteligentes" fazem?? Marcam outra reunião!!
    Sempre que pude fugi delas..mas quando são inevitaveis respiro fundo entro naquela sala gelada e penso...serão qtas horas perdidas desta vez?
    O problema das reuniões hoje em dia é que elas poderiam ser produtivas se as pessoas soubesse o que elas realmente querem, chegassem na hora marcada e cumprissem o que foi prometido na reunião anterior. Porem o que acontece é que as pessoas marcam reunioes para fazer "brainstorm" acho que eles acham a palavra bonitita e chique..., ou seja, é a mesma coisa que dizer vamos matar o tempo fazendo nada e dizer depois que chegamos nas mesmas conclusões anteriores pois assim não teremos que trabalhar mais com mudanças....
    Reuniões seriam úteis se as pessoas já fossem com objetivos traçados fossem sucintas e objetivas, resolvendo os problemas e não criando outros, para que outra reunião seja marcada e então novos problemas sejam NÃO resolvidos....

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