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quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Alta Direção - Série: Os Executivos Cap 4

Se você está entrando no mercado de trabalho e tem ambições na vida, seu primeiro desejo é trabalhar numa empresa de alta tecnologia, de preferência que tenha ações cotadas pela Nasdaq (bolsa americana que negocia ações destas empresas). Normalmente estas organizações são divididas em várias empresas comandas por uma Holding, onde encontramos o Board, o conselho de administração. Em geral ele esta localizado em um prédio suntuoso (Olimpo) e é lá que se encontra ele : O Presidente ou Zeus. . Para vocês terem uma mínima noção da grandeza destas sedes, vou exemplificar: Certa vez fui em uma reunião numa empresa chamada Willians, uma companhia de petróleo e Telecom com sede em Tulsa, no Kansas, famosa por seus tornados destrutivos provavelmente causado por Zeus, o senhor dos céus e dos raios. Ao entrar no magnífico edifício de cristal da empresa, , a primeira coisa que me chamou a atenção foi a altura do pé direito do hall; havia ali até alguns executivos praticando asa delta na hora do cafezinho.

Outra características destas sedes, são suas mesas de reuniões e ai vamos a Houston, quando nos reunimos em uma empresa chamada Enron: ao entrar na sala de reuniões a primeira coisa que nos saltou a vista foi o tamanho da mesa, madeira de lei maciça, cuja construção contribuiu por quase 50% do desmatamento da floresta amazônica, tão combatida pelo governo americano. Esta empresa, uma companhia de energia e Telecom e faturamento de 101 bilhões de dólares / ano, entrou em concordata em 2001, um ano após minha visita (calma lá, não tenho nada com isto), levando consigo a Arthur Andersen, uma empresa de auditoria que maquiava os resultados financeiros do grupo. Mas onde eu estava mesmo? A sim: sentamos na imensa mesa, e ficamos a espera do Presidente, mas para surpresa nossa ele já estava acomodado na ponta da mesa, pois sua voz grave e gélida ecoou subitamente por toda a sala, derrubando 4 de nossos executivos. Logo saquei meu binóculo suíço, que havia acabado de comprar em Chinatown, e visualizei o Presidente em sua cadeira magnífica, toda coberta de pluma e paetês, parecendo um carnavalesco, mas depois descobrimos que era em nossa homenagem. E de repente tocam-se trombetas e eis que surge um imenso telão, e levantam-se em nossa frente, telas LCD com a figura do Big Brother, quer dizer, do Presidente. Nosso executivo chefe, vendo aquilo, imaginou que já estava no avião de volta ao Brasil, e pediu a uma das comissárias da sala, uma garrafa de whiskey para assistir o filminho, mas esta é outra história.

Para um executivo, nada mais glamoroso que estar ao lado de um Presidente. Certa vez visitei uma empresa, numa cidade próxima a New York, que não me lembro o nome. Não era uma empresa muito grande, mas me levaram, para uma reunião de apresentação de IPO em Wall Street, um novo empreendimento (startup) da empresa. IPO ou Initial Public Offering significa a abertura de capital de uma empresa no mercado acionário. Normalmente é o seguinte: a empresa monta um plano de negócios para atrair dinheiro de investidores para ficar numa boa, até entrar em concordata, montar outro business plan e lançar outro IPO. Também conhecido como pirâmide financeira.

Fiquei ali assistindo como bom brasileiro e no final, claro toda a imprensa especializada foi entrevistar o Presidente. Ele, pensando que eu era alguém importante, me chamou para sentar ao seu lado, me apresentando como o primeiro cliente internacional. Claro fui usado, mas gostei, e fiquei lá respondendo aos nobres repórteres de Wall Street. E pior, elogiei muito a tecnologia da empresa, mesmo sabendo que era uma galinha morta, coisa que eu já tinha deduzido, com meus poucos conhecimentos. Este empreendimento será sem duvida um sucesso, disse aos repórteres, arrancando sorrisos do Presidente. Claro a empresa funcionou por cinco anos, até consumir os bilhões de dólares surripiados dos pobres investidores.

Ah sim, a Presidência também é conhecida nos escalões inferiores como a fronteira final, onde nenhum subalterno jamais esteve, ou jornada nas estrelas.



Logo abaixo Dele, O Presidente, está o Vice-Presidente, ou Posidon, quem efetivamente manda na organização. O Presidente, assim como nosso companheiro Lula, não trabalha: ele viaja, nas suas fortalezas voadoras, recebe políticos, entidades, prêmios e faz obras de caridade (Bolsa Família para funcionários demitidos da concorrência). O problema é que ele, O Presidente, de vez em quando, recebe algumas entidades do além, e subitamente tem idéias futurísticas: por exemplo: vamos implantar o tele-transporte, e manda um email que paralisa toda a organização, todos buscando de viabilizar o tele-transporte do Presidente. Isto provoca um mal estar generalizado, com os executivos fazendo reuniões de emergência, para salvaguardar o prêmio de resultados do fim do ano, já que a metas da empresa não serão atingidas, com a mobilização maciça de todos funcionários, todos trabalhando no brinquedinho novo do Presidente. Mas verdade seja dita, pode chover raios e canivetes, mas o premio de resultados estará garantido, pois vários executivos já fecharam negócios antecipados comprando fazendas e apartamentos e não há nada neste mundo que possa impedir isto. É para isto que servem empresas como a finada Arthur Andersen, para maquiar os resultados e garantir o maná. Que se danem os acionistas: primeiro o mais importante, o prêmio de resultados, praga moderna inventada para encher os bolsos dos executivos, e manter o segundo escalão sob controle e trabalhando arduamente. Mais uma vez, a herança da contra-reforma: rico não trabalha, deixa isto com os escravos.

Abaixo do Presidente e do Vice, vem o board amarra cachorro, e o primeiro deles é Relações Publicas. Um serzinho desprovido de inteligência, mas bom comunicador e engabelador. O Public Relations é aquela figurinha que aparece na televisão quando alguma notícia ruim sai sobre a organização. Cabelos penteados para trás com brilhantina, terno impecável, voz suave e expressão inexistente. Não há emoções, sugerindo apenas um imenso vazio, e o vazio, como diz Fitzgerald, é uma coisa muito vergonhosa para ser divulgada. Evidentemente, quando a notícia é boa, quem aparece é o Vice-Presidente, com seu ar grave e superior, na tentativa de passar uma impressão de ética e honestidade, tendo o mesmo sucesso que um político.

O Presidente limita suas aparições apenas na revista Fortune. Quando as organizações estão em decadência, eles, os Presidentes, podem até aparecer na revista Caras, mas ai já é o fim. Suas próximas aparições, provavelmente vão ser no noticiário policial, numa daquelas operações da PF de nomes pitorescos como satiagrahas.
No Próximo Capitulo: O Board Amarra Cachorros (Continuação)
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