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sábado, 10 de abril de 2010

O Famigerado Recursos Humanos (Parte 2 – A Demolição) - Série: Os Executivos - Cap. 7

Este artigo é continuação do capitulo 5, e somente hoje foi liberado pela censura.


Outra atividade do RH é a estruturação da impagável, da inenarrável convenção anual, que reúne a alta direção e todos os seus funcionários.


Antigamente estas convenções aconteciam em barracões da organização, em galpões de cerealistas, em quadras de futebol, ou seja, eram reuniões espartanas. Os pobres funcionários ficavam de pé, às vezes no sol escaldante, ouvindo discursos intermináveis, de todos os integrantes da alta direção. Um ambiente propício para confusões. E elas surgiam frequentemente, asi no mas.


No meio de um discurso qualquer, mulheres gritavam aterrorizadas:


- Ratos!


E em segundos, todos os funcionários corriam desesperados. Isto ficou conhecido como a disparada, pois sempre acontecia nas convenções, e serviu de inspiração para o Geraldo Vandré, antigo compositor da esquerda festiva, criar uma cançao que possui este nome, para um festival de musica popular brasileira. Esta canção, por sinal, foi uma das motivadoras para o fechamento do Congresso Nacional em 1968, o que prova os riscos para a sociedade, causado pelas convenções anuais das empresas.


Felizmente, no meio da confusão, sempre aparecia um funcionário, tipo Schwarzenegger que gritava:


- Calma cambada, eu mato os ratos!


Aí, a turba ululante subitamente parava a correria, mas outro movimento, como numa ola, acontecia: os chefes e a alta direção saíam em disparada, pois o funcionário musculoso não citou os nomes dos ratos, então era melhor se prevenir. Mas esta é uma história antiga do capitalismo selvagem.


Mas vamos aos dias atuais. Hoje tudo mudou. Os funcionários são considerados pelos executivos, como o maior patrimônio da organização, pois sem eles não haveriam tantos postos de trabalho para eles, Os Executivos. É verdade que os acionistas veem com reserva esta decantada importância, mas aceitam o fato, contribuindo para a estabilidade econômica e social de seu país e principalmente por reduzir seus gastos com o imposto de renda.


A Convenção anual hoje, se realiza em modernos anfiteatros com ar condicionado central e poltronas confortáveis. A turba vai chegando aos poucos, e um fausto café da manhã os espera. Após se locupletarem de guloseimas, se dirigem aos seus lugares, afagando a pança e palitando os dentes. À frente deles, em um palco formidável, de provocar inveja aos artistas musicais tupiniquins, estão sentados todos os membros da alta direção. E assim começa o show: com os acordes iniciais do Hino Nacional. A galera em uníssono, sob a batuta do diretor de RH, que faz gestos enérgicos, se levanta e começa a cantar ou a fingir que canta, pois ninguém se lembra da letra do hino. Repentinamente, o telão se converte em teleprompter e agora a letra do hino está visível para todos. Muitos, acreditando que aquilo é uma seção de karaokê, solicitam microfones às cheerleaders do RH, assistentes de palco, que a esta altura já estão sacudindo compassadamente seus pom poms.


No alto do palco, os membros do alto escalão, como numa coreografia ensaiada, jogam uma perna para a frente e colocam a mão no peito. Alguns choram copiosamente, revelando todo o patriotismo deles, os Altos Executivos. Para variar ele, o Diretor de RH, passa dos limites, e faz a saudação nazista e solta gritinhos de Heil Hitler, recebendo prontamente uma traulitada do Presidente, e sai catando cavaco, até se despencar do palco, sendo amparado prontamente por sua equipe, sempre a postos, antes de se estatelar no chão de granito.


Terminado o hino, o diretor de RH abre a seção solene, e chama ele, o imprevisível, o desprezível, o abominável Mr. M, um personal trainer da organização, que pede à galera para se levantar e tem início aquela coisa ridícula de ginástica rítmica. Ele é especialmente cruel com a alta administração, pois intima cada um deles a entrar no rebolado, e a platéia delira, com os movimentos de quadris do alto-escalão. Um ou outro acaba soltando a franga e requebrando entusiasticamente, para desespero do Presidente que manda imediatamente parar a palhaçada, antes que os executivos assanhados, transformem a convenção em um Gala Gay.


Depois seguem as apresentações dos diretores de cada área da empresa e o coffe break. Em seguida, especialmente convidados pelo RH, sobem ao palco um casal de velhinhos e uma molecada: uma família de velejadores ao redor do mundo, que contam histórias interessantíssimas como o dia em que choveu forte e eles no meio do oceano, esqueceram de fechar umas das janelas do barco ou o dia em que avistaram um golfinho dando piruetas ao lado do barco.


Claro, neste momento, as poucas pessoas da platéia que ainda estavam acordadas, estavam na maior algazarra, para desespero do diretor de RH. O presidente, vendo aquele espetáculo patético, tira o microfone das mãos dos palestrantes marítimos, que saem praguejando e exigindo o cachê integral.


O presidente então finaliza a reunião, disparando alfinetadas contra todos os membros da alta cúpula, que vão se abaixando paulatinamente em suas poltronas. No final da apresentação, o presidente pede uma salva de palmas para as poltronas vazias, ou seja para os altos executivos que agora estão rastejando pelo chão. Eles, pouco a pouco vão se levantando, como cobras de um encantador de serpentes, mas estas, pelo menos, não são tão perigosas.


E no final: o gran finale. O diretor do RH distribui uma polpuda cesta básica para cada um dos funcionários, que saem carregando seus saquinhos de 50 kg para fora do anfiteatro.


O presidente, já do alto, em seu helicóptero, olha pela janela panorâmica e diz para o Vice Presidente:


- Você precisa mandar dedetizar os jardins, olha a quantidade de formigas na saída do anfiteatro!


O Vice, nervosamente pega o celular, e grita instruções para o diretor de operações, exigindo uma solução rápida, nem que seja na base do napalm.


Mas é aí que entra em ação o diretor de RH:


- Calma Senhor, aqueles são nossos camaradas carregando suas cestas básicas.


Recebe outra bordoada do presidente, pois camarada é coisa de comunista, e se agarra desesperadamente no trem de pouso do helicóptero, pois a porta ainda estava aberta.


Ah sim, ia me esquecendo. O RH também organiza a convenção anual dos executivos do grupo, mas ela acontece em salas de reuniões de hotéis localizados em lugares paradisíacos mundo afora. O show é muito parecido, mas claro, não há distribuição de cestas básicas, apenas notebooks, iphones e outras cositas mas.


Outra inovação do RH, é a criação de grupos interdepartamentais para o desenvolvimento de um novo produto ou negócio.


Antigamente um produto era criado por um líder de projeto mais uma equipe mínima, e os projetos saíam rapidamente e bastante precisos. Mas isto não era muito bom, pois requeria um staff mínimo, comprometendo a criação de novos postos de executivos, tornando necessária a intervenção do RH, para salvaguardar os interesses da classe.


Primeiramente foram introduzidas as equipes interdepartamentais e depois as multi-departamentais, nas quais se alocava um indivíduo de cada área da organização, mesmo das áreas, que só por videoconferência era possível a presença do membro distante da equipe, pois se fosse pegar um vôo para participar das reuniões não chegaria a tempo. Daí nasceu a necessidade do teletransporte, como descrito no capítulo 4.


A primeira reunião, que acontecia no mesmo auditório da convenção anual, dada a quantidade de membros da equipe do projeto, iniciava-se pela apresentação de cada um dos participantes.


- Meu nome é fulano de tal, sou do signo de aquário, tenho 25 anos, trabalho no departamento de Viabilidades Estratégicas Nebulosas, e estou aqui para somar, desde que não sejam contas muito grandes, pois tenho deficiência em matemática, e bla bla bla.


A platéia:


- zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz


Lá pelas 5 da tarde, quando termina a última apresentação, entra no auditório, o CEO da empresa, pedindo a eles que deem um nome ao projeto. Após alguns minutos de disputas verbais a equipe chega a um consenso e apresenta dois nomes ao CEO. Ele olha aquilo e sugere:


- Vamos decidir no par ou ímpar, pedindo a 2 participantes para jogarem ao seu sinal, que ele informará o resultado à toda equipe, definindo nome a ser utilizado no projeto.


- Um, dois, três e já!


Faz-se um longo silêncio e os jogadores permanecem com seus dedos em riste, um deles já sentindo as primeiras caimbras e a platéia espera ansiosamente o presidente dizer qual dos dois foi o ganhador.


O CEO, parecendo ausente fica alí olhando fixamente para a porta da adega da sala, até que um dos membros da equipe, arrisca e pergunta.


- Então chefe, quem foi o ganhador?


O CEO, subitamente recorda o que foi fazer ali, olha para as mãos dos jogadores, um dedo levantado cada um, e dá o veredicto:


- Empate! Joguem novamente ao meu sinal.


Algumas jogadas depois, finalmente o CEO define o nome do projeto.


Dois anos depois, quando o projeto entra em sua fase final, acontecem acaloradas discussões técnicas entre os especialistas do projeto. O membro do RH, que até então se manteve num silêncio sepulcral, resolve então dar sua preciosa contribuição:


- Proponho uma dinâmica de grupo para resolvermos esta questão, se vamos utilizar esta coisa aí de frames assíncronos de 48 bits ou 64 bits. Temos um casal, especialista em biodança que ajudará bastante: faremos um teatrinho, cada um representando um equipamento ou software, você será o router, ele a switch ATM e assim por diante.


Bem, vou interromper por aqui, pois certas recordações podem ser prejudiciais à saúde.


No Próximo Capitulo: O Marketing ou Vamos Fazer Uma Pesquisa de Mercado.

2 comentários:

  1. Muito bom!!!

    ps: Concordo com as meninas do tipo perigosas, você devia escrever um livro, não?

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  2. Quanto ao livro, só vou poder pensar no assunto, quando este blog for indexado no google, pois até aqui estes Blog só é conhecido por alguns amigos e os amigos dos amigos. Aí saberei de fato se ele desperta ou não o interesse.
    Obs.: Continuo um executivo perigoso, sempre com um ego exacerbado (uma vez flamengo sempre flamengo)

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